A day in a life: Mrs. Dalloway (1925), de Virginia Woolf

O que é esse terror? O que é esse êxtase? Ele pensou. O que é isso que me enche de emoção extraordinária?
É Clarissa, ele disse.
Porque lá estava ela.

Pelo menos dois enredos de romances modernistas acontecem no período de um dia: Ulisses (1922), de James Joyce, e Mrs. Dalloway (1925), de Virginia Woolf. Neste, lemos sobre um dia da vida de Clarissa Dalloway, uma mulher de classe alta que mora em Westminster, em Londres, no período após a Primeira Guerra. O romance abre com Clarissa indo à floricultura para comprar flores que vão decorar sua casa para a festa que ela organiza para aquele dia.

O romance tem uma narração em fluxo de consciência, ou seja, os pensamentos dos personagens são abertos ao leitor. É como se houvesse uma câmera dentro da cabeça dos personagens e cada pensamento e olhar fosse revelado ao leitor. Dessa forma, aprendemos que Clarissa Dalloway pensa constantemente em um amor não resolvido: Paul Walsh, seu amigo de juventude, a pedira em casamento, mas ela recusou. Porém, embora ela afirme estar feliz com seu marido Richard e sua filha Elizabeth, a presença de Paul é notavelmente incômoda. Para Walsh o assunto Clarissa também parece não estar resolvido: ela é um fantasma que ronda sua vida e talvez seja o motivo pelos constantes fracassos em relacionamentos que ele enfrenta.

Também temos acesso aos pensamentos de outros personagens, como o ex-soldado Septimus Warren Smith, casado com a italiana Lucrezia. Septimus lutou a Primeira Guerra Mundial e voltou para casa em choque, muito traumatizado com a morte de um companheiro, Evans. O trauma da guerra faz com que Smith ouça vozes, fale em suicídio e se distancie de sua esposa. Smith será internado em um hospital psiquiátrico, mas não quer ir.

Mrs. Dalloway é um romance sobre coisas não ditas. Clarissa não diz a Paul Walsh que talvez ainda o ame; Paul não diz a Clarissa que ela ainda o atormenta. Richard Dalloway pensa em chegar em casa e falar que ama Clarissa, mas não consegue. A pergunta que os personagens se fazem é: “E se?”. Eles não encontram uma resposta e o próprio romance termina com questionamentos: “O que é esse terror? O que é esse êxtase?”.

Clarissa Dalloway talvez seja uma mulher de aparências — todos gostam dela, mas existe “algo” que não parece encaixar. Para alguns, Clarissa é vazia; para outros, ela é incapaz de estreitar laços afetivos. No entanto, através dos pensamentos de Clarissa, vemos como relacionamentos se desenvolvem — ou não -, como a depressão e o trauma afeta a vida das pessoas e como as coisas não ditas permeiam a existência.

A morte era provocação. A morte era uma tentativa de comunicar; pessoas sentindo a impossibilidade de alcançar o centro que, misticamente, as evitava; a proximidade se distanciava; o êxtase desaparecia, você estava sozinho. Havia um abraço na morte.

Título: Mrs. Dalloway

Autora: Virginia Woolf

Ano de publicação: 1925

Minha edição: Kindle, 2013

Minha tradução dos trechos.