Sobre Uvas e Porcos
Diziam os mais antigos no povoado que existia uma pequena região afastada em meio ao cerrado, em que vivia uma família que todos conheciam, mas ninguém nunca havia visto.
Em um casebre no meio da Serra vivia seu Virgílio- senhor franzino, 60 e poucos, pele amarga de suor e solidão. Com ele também vivia sua ex-mulher, dona Valéria. Dizem que ela enlouqueceu tentando encontrar uma estrada para uma cidade que jurava ser fantasma, bem ali, perto do nada. Um dia saiu de casa, disse que não cabia mais naquela caixa cercada de vazio e foi desbravar as cidades fantasmas. Seu Virgílio não teve como contestar e em uma noite de lua cheia a soltou no vento.
Dona Valéria o deixou com o filho deles, seu João Paulo- que todos dizem ser Nelsinho. Ainda não descobri qual o nome verdadeiro- talvez seja Tadeu. O filho sem nome com nomes mil é um pouco retardado. Esquisito, pra não dizer outro nome. Passa horas sentado embaixo ao cajueiro procurando formigas de cabeça torta e tentando encontrar onde elas vivem. Até hoje não encontrou uma sequer, mas continua tentando. O povo diz que ele deve ter herdado a doidice da mãe.
Anos depois da partida de dona Valéria, dizem que ela foi encontrada tentando capturar o vento que a levou embora pra tentar encontrar o caminho de volta. Parece mentira, mas ela encontrou. Não sei se com o vento ou com as marcas de solo seco que registra as pegadas de quem passa por ali.
Hoje vivem no casebre os 3, mais um primo distante que veio de passagem visitar e acabou ficando. Talvez ele seja o mais normal. Veio por nao aguentar o silencio dele mesmo, e se encontrou no barulho das cobras- d’agua que corriam por debaixo dos entulhos do quintal. Eu mesma estive no casebre e posso dizer; é tudo verdade. Mas consegui encontrar a formiga de cabeça torta que Nelsinho nunca encontrou. Talvez seja problema na vista- na dele ou na minha-. Também não consegui ver ninguém, mas sei que o que dizem deve ser verdade. Apesar de também saber que por aqui a verdade é uma questão de perspectiva.
Terra farta de caju que transborda de suco a boca e desenha a pele de castanha, nunca pensei que porcos viveriam ali.
E de repente, distraída, encontro uma família inteira de porcos correndo e secos buscando água pra se fartarem. Bem ali no meio deles, conheci Rino, o menino porco.
Não sei ao certo se Rino era porco ou menino ou um rinoceronte. Mas ali em meio a tantas leticias cor-de-rosa, ele era o único cinza e magrelo que não encontrava o caju que jogava. Era tanta terra, que o caju brilhava como manga madura em meio aquela vermelhidão. Mesmo assim Rino não conseguia encontrar seu alimento. Já sabia que ele não pertencia aquele bando. Talvez eu tenha me reconhecido nele. Na minha agonia por dar-lhe algo de comer, comecei a desejar que ele só se aproximasse. Queria dizer que eu entendia sua aflição. Mas quando eu tentando me reconhecer mulher-bicho com ele, o fazia recuar.Acoitada entre formigas de cabeça-torta e uma corrente de vento tão forte quanto a quentura do sol, desejei que pudesse encontrar ali o que ninguém via.
Num suspiro, começaram a derramar das árvores, uvas. Imensas, roxas, cheias de suco e semente. Quase um devaneio. Dividimos os cachos de uvas pela terra para que Rino conseguisse encontrar o caminho.
Em uma suspensão de tempo, simplesmente olhei cada passo, e a tentativa dele em encontrar as uvas. Quando desisti, de longe o vi se lambuzando naquela única uva que havia restado no meio da lama. Era um sinal e eu entendi. Rino não era mesmo porco, tampouco menino. Me fez lembrar as coleções de rinocerontes e fechaduras pra tentar entender nosso lugar nessa secura cheia de vida.
Quis leva-lo embora, mas entendi que mesmo em um nao-lugar, ele tinha uma rede de lama pra se banhar perto dos seus irmãos-porcos, mesmo que ele soubesse que não eram de fato irmãos, talvez nem porcos, mas permaneciam juntos ali- um cuidado do outro. Fui embora do casebre sem sequer ter cruzado os olhos com dona Valéria, ou seu Virgílio, ou Tadeu e o tal primo. Mas dali soube que existiam. Assim como eu por um momento breve.
Gostaria ainda de entender o caminho que o vento fez pra dona Valéria encontrar sua cidade fantasma. Talvez seja ali mesmo e ela tenha depois de tanto tempo entendido. Ou dizer pra Nelsinho que as formigas de cabeça-torta existem, e não é isso que o faz parecer retardado. As pessoas que não entendem o que não conseguem encontrar. Talvez dizer pro seu Virgílio que admiro sua coragem de jogar sua mulher no vento e recebe-la de volta em silêncio.
Rino, o menino porco saiu correndo sem olhar pra trás depois que encontrou sua uva. Os olhos marejaram e por um instante transbordei. O que não entendiam das vidas naquele casebre era tao somente que necessitava apenas uma uva para alimentar os porcos
