A liberdade não é uma escolha corriqueira para mulheres

Nunca fui uma pessoa muito organizada. Talvez pelo meu jeito, sempre com um pensamento ou outro mais longe, sempre querendo tudo para mim, com vontade de comer o tempo antes que ele acabe. Na preocupação com o momento, as coisas materiais não recebem muita atenção quando estão na minha mão. Teimosas, fogem para o asfalto com a mesma pressa que eu e insistem em quebrar. Já estou acostumada.

Quando mais um dos meus celulares desistiu da difícil vida de me ter como dona e se estatelou no chão, precisei procurar outro num desses grupos do Facebook. Foi lá que conheci o Bruno, um autônomo que arruma celulares em casa para ganhar um a mais. Ele foi extremamente atencioso comigo, me cobrou um preço justo, se ofereceu para dar um tapa no meu antigo celular suicida e vende-lo me cobrando uma comissão muito mais vantajosa do que o cara da propaganda bonita no Facebook.

Mesmo sabendo que ele é gente boa, sei também que eu sou mulher. 
Ao chegar em frente à casa dele, faço uma análise mental: nove da noite, sem porteiro, escuro, prédio vazio…eu que não sou maluca de entrar. Não conseguiria me defender sozinha se algo acontecesse, e ouvimos histórias demais a ponto de sermos obrigadas a tomar esse tipo de decisão para nos sentirmos seguras. Mandei, mentindo, uma mensagem: “estou de Uber, pode vir aqui fora buscar?” Dentre as várias táticas que adotamos diariamente por sermos mulher na nossa sociedade, essa é uma das melhores, já que deixa claro que eu estou com um homem me esperando.

Precisamos sempre ter um homem nos esperando.

O rapaz me encontrou lá embaixo e ofereceu: “não quer ficar com um que eu tenho reserva por um tempo? Chega aí!” ele disse, me convidando para subir as escadas da portaria e ir até seu apartamento. Comecei a andar e, depois de uns 3 passos, travei. Menti de novo. “Puts, que tonta eu! Minha mãe tem um lá, esqueci, deixe quieto, eu pego o dela!”. Ele insistiu várias vezes, e eu inventei uma desculpa diferente para cada uma delas. 
Medrosa e mentirosa.

Que idiota sou. Quando fui embora, me senti vazia. Como se de nada adiantasse eu ser dona do meu próprio nariz, tomar minhas próprias decisões. Elas nunca vão ser completamente minhas. Tem algo que me impede. Eu não sei exatamente o que é, onde está, quando vai aparecer. É como se uma intuição lá atrás me dissesse que eu sou a próxima. Prefiro não arriscar. Com isso, perco minha liberdade de escolha, perco atitudes que queria tomar, perco amigos que poderia fazer, perco a fluidez das coisas, perco vida.

Tenho que abrir mão do que quero para ter uma segurança que deveria ser garantida apenas pelo respeito entre um ser humano e outro. 
O respeito deveria nos bastar.

Parei para pensar o quanto isso nos afeta como pessoas. O quanto perdemos como pessoas. Eu bloqueei minha vida por isso. Ficaram martelando na minha cabeça cada uma das mentiras que tive que inventar. Sou uma péssima mentirosa, por isso tenho certeza de que o rapaz percebeu e não entendeu nada. Ou pior…ele provavelmente se sentiu mal por ter me deixado incomodada. Pensou q­ue era algo com ele. D­eve ter se perguntado por que, o que fez de errado. Talvez ele já tenha alguma insegurança na vida, e quem sabe isso vai ajudar a aumenta-la. 
Quem sabe isso vai entrando no bolo de coisas que não fazem bem, mas insistem em ficar guardadas lá no fundo em um cantinho, para se revezar dentre as vezes em que nos impedem de viver da forma como gostaríamos.

Minha vontade era me desculpar com ele, dizer que ele foi um cara legal e fez trabalho bacana. Me pergunto quantos Brunos existem por aí. Homens que lutam para mudar a forma como nos tratam e, por ironia da vida, acabam sendo vítimas desses tipos de bloqueio tanto quanto nós.

Parte da culpa é minha. É como se eu tivesse sido canal de sentimento ruim. O recebi e passei para frente. Deixei que vivesse porque não soube lidar. Se soubesse, ele não teria passado de mim. Mas simplesmente não sei. Na verdade, nós, mulheres, nunca sabemos completamente. Em um momento ou outro da vida, temos que recuar. Temos que inventar um namorado, fingir uma ligação do pai. Temos que pedir socorro. 
Não nos garantimos por nós mesmas.

Posso encher o peito para gritar minha independência e liberdade, mas a verdade é que aquela voz lá de dentro fala mais alto. Ela é construída por uma influência muito forte, alimentada desde que nasci, enraizada em nós, que se manifesta das mais variadas formas. E alerta desesperadamente situações reais que acontecem todos os dias com as mulheres à nossa volta.

Nós lutamos para viver sem quaisquer amarras, mas somos reativas a elas o tempo todo sem sequer perceber. 
De tempos em tempos, elas ficam mais aparentes e se materializam em forma de Brunos só pra nos lembrar que ainda estão lá nos segurando.