Um dos quatro amores

Amar é sempre ser vulnerável. Ame qualquer coisa e certamente seu coração vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, você não deve entregá-lo á ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva-o cuidadosamente em seus hobbies e pequenos luxos, evite qualquer envolvimento, guarde o na segurança do esquife de seu egoísmo. Mas nesse esquife — seguro, sem movimento, sem ar — ele vai mudar. Ele não vai se partir — vai tornar-se indestrutível, impenetrável, irredimível. A alternativa a uma tragédia ou pelo menos ao risco de uma tragédia é a condenação. O único lugar além do céu onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os riscos e pertubações do amor é o inferno.

A perfeita adaptação cinematográfica desse conhecido trecho da obra de C.S Lewis se chama Terra das sombras. Com certeza, um dos filmes mais bonitos que já vi. Expõe uma etapa da vida desse sublime escritor, interpretada por ninguém menos que Anthony Hopkins. Não consigo esconder que é o meu preferido, tanto pelo estilo literário como pela profundidade com que aborda de maneira simples temas metafísicos.

Por causa desse filme fui em busca do livro “Anatomia de uma dor”, obra não muito conhecida e escrita por Lewis sobre os momentos retratados no filme. Ao contrário de Cristianismo Puro e Simples, neste você encontra seu lado mais emocional e vulnerável; o lado de um homem que ao mesmo tempo em que professa a sua fé, expõe seus momentos de dúvida e fragilidade de forma extremamente honesta.

Obras assim são valiosas porque mostram a vida como algo complexo, e acima de tudo, como um mistério em muitos sentidos. Não há espaço para enxergá-la de forma banal ou irresponsável diante das circunstâncias. Não maquiam a realidade do coração humano, nem tratam de um mero “direito inalienável de ser feliz”, pensamento que circunda muitas mentes.

A verdade é que estamos nesse mundo e não somos soberanos sequer sobre os acontecimentos que buscamos controlar. Muito nos escapa. Podemos levar uma vida inteira para entender o propósito de nossa existência, entre erros e acertos, e mesmo quando o captamos, a hesitação e insegurança permanecem inevitáveis; em curtos espaços de tempo, quase inescapáveis.
Resta que a vida, o amor, e até mesmo o sofrimento são dádivas. E isso basta.