Economia Criativa: Uma opção de desenvolvimento viável


Vivemos num tempo em que é senso comum afirmar o quanto somos todos iguais. Mas no afã de respeitar as diferenças, igualando esse com aquele, corremos o risco de apagá-las no que elas têm de mais valoroso: nossa singularidade, aquilo que nos faz — a nós como sujeitos ou a um grupo ao qual pertencemos — únicos.

A economia criativa valoriza exatamente essa singularidade e seu potencial de desenvolvimento pessoal, o que, obviamente, acaba por se refletir no coletivo.

Por desembocar no subjetivo, definir o que é economia criativa não é uma tarefa simples — a singularidade, o simbólico e aquilo que é intangível, a criatividade, são os pilares da economia criativa. O contexto cultural, a economia local e os aspectos sociais influenciam diretamente no que a economia criativa pode oferecer em termos de desenvolvimento.

Transformar esse potencial em uma proposta de desenvolvimento econômico viável é uma forma de quebrar paradigmas e combater a ineficiência de alguns modelos econômicos que acabamos repetindo por não encontrarmos — e às vezes, nem procurarmos — outras maneiras de crescer, como conta SANTOS-DUISENBERG (2008, p. 53):

Antigos paradoxos continuam a desafiar a sociedade contemporânea do terceiro milênio. As desigualdades sociais e os desequilíbrios econômicos permanecem como desafios visíveis do mundo globalizado, apesar dos avanços tecnológicos e da prosperidade que caracterizaram o crescimento da economia mundial nos últimos anos.

O mundo está em constante mudança e se a globalização serviu de alguma coisa — além de conectar os pontos mais distantes do planeta — foi para nos mostrar que em cada lugar, em cada contexto, existe algo de particular que funciona como fomentador e potencializador para as pessoas que vivem nestes lugares e contextos. Em outras palavras, a economia criativa pode ser uma resposta a um quadro socioeconômico global em transformação.

O desafio atual é encontrar uma maneira de acompanhar essas transformações levando em conta alguns inevitáveis limites que, no caso de países em desenvolvimento como o Brasil, esbarram em escassez de mão de obra qualificada, infraestrutura precária, tecnologias obsoletas e falta de investimento em geral.

É possível afirmar que a criatividade e o talento, nesse mundo em transformação, estão substituindo os conceitos de trabalho e capital quando se fala em desenvolvimento socioeconômico. Não quero dizer que não haverá mais ‘trabalho’ nem ‘capital’, mas que seus conceitos, como entendidos e aplicados, estão esvaecendo.

Atividades criativas sempre estiveram ligadas à arte e, mais recentemente, ao lazer e ao entretenimento. Mas da fonte de onde essa criatividade nasce não se produz apenas arte ou entretenimento. A ideia de economia criativa é exatamente perceber o quanto esse potencial criador pode impulsionar o desenvolvimento econômico, pessoal e social da sociedade como um todo.

Na Europa, estudos apontam que a economia criativa tem liderado o crescimento econômico de diversos países, gerando empregos, favorecendo o comércio e elevando seus faturamentos. Isso se dá através tanto dos incentivos vindos de políticas públicas quando de parcerias público-privadas e iniciativas não governamentais.

Mas mesmo quando a economia criativa mostra mais força no setor informal de uma economia — como parece acontecer nos países subdesenvolvidos — ela acaba promovendo inclusão social (ao absorver jovens marginalizados ou em situação de quase marginalização) e criando condições mais equilibradas entre gêneros (por exemplo: mulheres que trabalham com artesanato ou reciclagem, por exemplo).

Talvez a economia criativa não consiga dar todas as respostas à pobreza mundial nem achar a saída definitiva para o que SANTOS-DUISENBERG chama de “círculo vicioso de subdesenvolvimento”.

Potencialmente, no entanto, ela pode ampliar o leque de possibilidades de desenvolvimento de um país, estado, região, cidade ou até mesmo um bairro, de modo que crises econômicas possam ser dribladas, desequilíbrios sociais possam ser amenizados e necessidades reais sejam atendidas.