Conto motivacional para sonhadores otimistas

Sobe as escadas correndo. Um pouco mais e estaria saltando. Um pouco mais e poderia pular dois degraus de vez. Mas não poderia oferecer aquele pouco a mais hoje, não hoje. Estava cansado, já estava muito cansado de subir aquela escada. O ar entrava e saía dos pulmões de forma insuficiente, as pernas oscilavam sob o comando de continuar subindo, como se fossem tão subversivas a ponto de questionarem tão primária ordem, e até os braços pareciam não ter mais forças para promover o impulso através do corrimão. Mas subia correndo. Era preciso.

A cada novo lance de degraus, uma placa informava onde ele estava. Só mais um pouco, só mais um pouco. Poderia pensar que ainda faltava uma distância considerável a ser subida, no entanto, era, por natureza, um otimista.

Recusava-se a desistir e a sentir-se pesaroso com o desafio. Conseguiria, ele chegaria e depois descansaria, sim, atiraria-se no chão, daria aos pulmões todo o ar do mundo, daria às pernas uma merecida trégua.

Mais um lance de escadas, sentiu a visão embaçar pelo esforço, balançou a cabeça espantando a fraqueza. Era forte. Era forte e otimista. Conseguiria.

E quando conseguisse, esticaria e dobraria os dedos das mãos repetidamente, para ter a certeza de que vivia. Deixaria o suor pingar no chão, talvez, quem sabe, desse alguns gritos para viabilizar a catarse que, certamente, viria com aquele desafio. Riria descontroladamente, uma crise de riso, como quando estava nervoso. É claro que ficaria nervoso, ou ansioso, por ter conseguido.

Poderia, até, rolar pelo chão do destino, uma forma de manifestar sua alegria pura, de essência infantil e, ao mesmo tempo, um modo de poupar as pernas. Sim, estava decidido, sairia rolando pelo chão.

Não sabe dizer quanto tempo se passou. Não sabe dizer por quanto tempo ficou encarando as manchas do teto, num misto de “dar uma importância exagerada à interpretação daquelas marcas de mofo” e “na verdade, não dar importância alguma”. Em outras palavras, poderia escrever uma tese sobre aquilo e, também, poderia levantar e nunca mais lembrar daquelas expressões bolorentas no teto.

Foi um pensamento estranho. Um possível efeito colateral do esforço que tinha feito? Possivelmente.

A inutilidade da reflexão despertou sua alma daquele torpor. Já poderia, afinal, levantar e gozar do sucesso de ter chegado onde quis, como fruto de seu esforço (tanto esforço).

Virou o corpo, apoiou as palmas das mãos no chão, flexionou os braços e os joelhos fizeram as respectivas partes nessa tarefa de levantar. Ergueu-se, enfim.

O ambiente adentrou em seu campo de visão como um tapa em câmera lenta. Sem força, sem dor, mas, ainda sim, um tapa. Mesmo para um otimista, o local era supervalorizado. Tentou, olhando para todos os lados, achar uma boa desculpa para dizer “ah, mas tem isso aqui. Isso já faz tudo valer a pena “. Não achou. Não havia “isso”.

Tudo bem, tudo bem, poderia dividir a decepção com alguém e, certamente, acabariam rindo do acontecimento. Poderia. No entanto, não havia ninguém. Estava só. A solidão tinha sido uma circunstância, não um peso, não até agora. Como se cordas invisíveis fossem cortadas, a carga de estar só caiu em suas costas com um impacto mudo.

Ar, não conseguiu puxar o ar com perfeição. Sozinho e com medo sentiu as pernas oscilarem sob o comando de continuar de pé, como se fossem tão subversivas a ponto de questionarem tão primária ordem, provavelmente, o mais primário de todos os comandos, “de pé”. Agora, contorcia o corpo em um protesto, de joelhos lutava e, de imediato, sucumbia. Até os braços pareciam não ter mais forças, pareciam não saber o que fazer, apoiar-se no chão, segurar o coração no peito, tocar o rosto, uma súplica para que o organismo reagisse e, concomitantemente, uma declaração de desistência. Não poderia continuar. Não era mais preciso.

Sentiu o corpo estremecer, o peito doía, partia-se e voltava à união, apenas, para partir-se de novo, com mais intensidade.

Lutou, resistiu, acreditou, fora determinado e otimista. Mas morreria. Ali, sozinho, e sem um “isso” do qual gabar-se.

Deixou o corpo cair para trás, o silêncio mortal reinvidicou seus ouvidos, sentiu o gosto ácido da morte tomar o paladar. E depois?

Ora, depois não sentiu mais nada.

Esforçou-se, uma última vez, para abrir os olhos, para ter um último contato com esse mundo de sonhadores solitários.

Teve essa última vitória, abriu os olhos antes de fechá-los pela última vez. Abriu os olhos e viu o teto com manchas de mofo, a decepção bolorenta que levaria consigo até a eternidade.

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