Uma reflexão de 2016 que me acompanha em 2017

“Estava de saída para assistir a um documentário quando fui interpelada pelas amigas da minha irmã caçula sobre para onde eu ia, com a resposta, recebi uma outra pergunta: “O que você faz?”. Eu disse. Ouvi um “ah faz sentido”.

Antes que minha curiosidade pudesse perguntar qual o sentido, minha irmã resolveu explicar meu curso. “Ela decora números de leis....e vê documentários”. Todas as pessoas do cômodo estavam satisfeitas com essa explicação. Menos eu.

Queria dizer que não era nada disso, que eu não decorava (nesse sentido pejorativo, destinado a coisas inúteis que gravamos) pura e simplesmente, que meu curso servia para ajudar as pessoas e para despertar questões importantes.

Só que fui abatida por uma dose extra de franqueza (é um perigo falar com a) pessoas com menos de 12 anos, e b) psicólogos) e percebi que, sim, eu acabo decorando e guardando comigo muitas informações que não fazem qualquer sentido (o que inclui expressões inteiras em latim, uma língua que eu não falo e que não contribui muito para tratar do meu curso com qualquer outra pessoa que não esteja inserida no mundo direitoso – alguém me disse uma vez que, se você não sabe explicar algo de forma simples, talvez você não saiba de verdade isso aí que acha que sabe-).

Pois bem, esse sentimento ficou comigo por alguns dias.

*Corte de cena *

Um garotinho apareceu no meu estágio, ele já tinha aparecido antes. Danado, irrequieto, animado e bem esperto. Para que os adultos pudessem resolver suas pendências, resolvi fazer um cachorrinho de papel com ele. Depois fizemos também outras peripécias com folhas de rascunho.

Ele voltou hoje, me mostrando brinquedos e cobrando novos bichinhos feitos de papel, explicando que tinha guardado os outros que fizemos na própria casa. Fiquei meio sem jeito de dizer que meu repertório de arte em papel não era tão vasto assim, mas tudo bem, mais cachorrinhos de papel foram suficientes. Ele gostou e disse até que eu era legal, e, mesmo depois de já ter saído, voltou para me agradecer (suponho que deve ter ouvido uma reprimenda, “vá agradecer à moça, menino”, só que eu vi aquele sorriso esperto lá, junto com o obrigado, então aceitei o agradecimento sincero de bom grado).

Esse “tia, você é legal” foi, com segurança, um dos elogios mais recompensadores dessa vida de estagiária. E aí eu fiquei pensando que é isso mesmo que eu quero fazer com esse meu curso.

(Fazer cachorrinhos de papel? Não .

Bem, talvez, considerando o sucesso dessa tentativa.)

Ser útil de verdade. Porque vestir uma roupa bonita e cuspir umas palavras difíceis é, no fim das contas, muito fácil (e tentador, não vamos esconder o jogo, jogar uma expressão chocante na frase dá uma moral). Só que poder ser útil para gente de verdade, que tem problemas de verdade e que precisa ouvir algo que entenda, que esteja a seu alcance, gente que precisa ser ouvida, mesmo que o problema não tenha quase nada de jurídico, isso aí é muito mais desafiador.

Então, da próxima vez que alguma pessoa muito esperta (como essas pessoinhas com menos de 12 anos) me perguntar o que eu faço, certamente, vou tentar responder que o que eu quero fazer é algo mais para cachorrinho de papel do que para um latim alienígena, ou quase isso (e vou manter a parte sobre ver documentários, claro).”

A single golf clap? Or a long standing ovation?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.