Baco Exu do Blues, Zeitgeist e a Salvador dos dias de hoje.

Nesta segunda-feira, 4 de setembro de 2017, saiu o álbum chamado “Esú” do rapper Baco Exu do Blues que deu uma sacudida na cena do rap nacional ano passado quando fez a música intitulada Sulicídio juntamente com Diomedes Chinaski. E o álbum é incrível em vários níveis e estou falando enquanto fã que está 100% comprometido pelo hype que envolveu esse álbum. Mas seguimos, porque não é bem disso do que eu vou falar.

O que é mais interessante no som do Baco é que ele consegue fazer referências o tempo inteiro ao local que é o seu berço e que o inspira, seja direta ou indiretamente: Salvador. E pra definir Salvador eu acho que Babilônia é um bom começo pra dizer o que é isso aqui. Alguns vão dizer que é selva, outros que é um paraíso, outros que é inferno. A real que Salvador acaba sendo tudo isso. Inclusive é muito normal os moradores e aqueles que se sentem pertencentes a cidade digam que amam e odeiam na mesma proporção e sem parecer contraditório.

É bem normal que músicos façam músicas sobre as cidades em que moram ou de onde vieram, e com Salvador não é tão diferente. Dezenas de músicos baianos/soteropolitanos usam a cidade como musa inspiradora. Mas o que a gente tem que admitir é que poucos realmente conseguem expressar exatamente o que é a cidade em suas músicas sem romantizá-la ou mesmo demonizá-la ao extremo.

E um dos músicos que consegue entender muito bem esse caos delicioso de Salvador e imprimir sua visão e entendimento é justamente o Baco que é um fruto e representação do “zeitgeist” atual (“zeitgeist” é um termo alemão que significa o espírito do tempo, espírito de uma época. Em suma, é o conjunto do clima cultural e intelectual de um mundo numa certa época) de Salvador. O melhor não é porque ele, necessariamente, fala sobre Salvador o tempo todo, mas porque em suas músicas ele deixa claro que aqui é o lugar que ele veio, seja citando o nome da cidade, seja fazendo referências que só quem conhece sabe, seja falando do jeitinho que você para e pensa: “Só em Salvador pra eu ouvir isso mesmo!”.

A Salvador de hoje não é a mesma que se passava uma tarde em Itapuã ouvindo o mar ou sentindo a preguiça no corpo. Ela é uma máquina de louco também. Primeira capital do Brasil, mas ao mesmo tempo a própria selva. Salvador não é para amadores.

A confusão, o caos, a linha tênue entre o divino e o mundano que ele deita e rola nas suas letras, o sincretismo, a mistura de elementos e referências, o culto aos pretos e pretas, a beleza no que parece feio, os sentimentos, a raiva, o amor, a decepção, o batuque, as fotos de capa das músicas no youtube: tudo isso é uma ode a Salvador, Terra Sagrada. Onde o Baco é Bahia, Preto e Salvador, mas não é cristo.

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