Sobre largar tudo e mudar de país

Normalmente esses textos são escritos por quem largou tudo e mudou de país. No meu caso, é diferente. Existem sempre dois (ou mais) lados de uma história e, aqui, é sob a perspectiva de quem fica.

Tenho notado cada vez mais a vontade de pessoas ao meu redor querendo sair do Brasil. Parentes, conhecidos, amigos. Não só a vontade, eles realmente decidem ir. Há quatro anos me despedi de alguém realmente importante pra mim: minha melhor amiga. Se não fosse pelo detalhe de termos nascidos de mães e pais diferentes, poderia dizer “minha irmã” sem precisar citar que é de consideração.

Ela sempre pareceu confiante sobre o que queria fazer da vida, quais eram seus objetivos e projetos. Ainda que houvessem dúvidas, ela ia de cabeça e pagava pra ver, sem olhar pra trás ou pensar duas vezes. Isso é o que parecia, pelo menos. Sempre admirei isso e imagino que nem ela saiba, mas me incentivou e me mostrou que tudo bem não ter controle do que vai acontecer, você precisa acreditar que pode dar certo. A velha história do “o não você já tem”.

Acompanhei, mesmo de longe, todas as suas dificuldades e realizações, e ela, as minhas. Absorvi um pouco de cada aprendizado. Estava presente de alguma forma em cada etapa e conquista, em cada frustração e vitória.

A vontade de estar perto é constante, principalmente naquele dia de sol em que estaríamos juntas na piscina, naquela noite em que sairíamos pra fazer alguma coisa que parecesse minimamente divertida, ou então que ficassemos em casa mesmo e assistíssemos algum filme ou show da nossa banda preferida.

Enquanto isso, por lá é tudo novo: cidade, amigos, casa e uma rotina que ainda nem recebe esse nome. É como ter a chance de começar do zero em um lugar que ninguém sabe nada sobre o seu passado.

Bom, mas como eu disse, esse texto é sob a perspectiva de quem fica. É sobre quando o coração aperta e a garganta trava de saudades. Às vezes dá uma angustia, os olhos se enchem de lágrimas e o máximo que dá pra fazer pra tentar aliviar tudo isso é conversar no FaceTime, skype ou alguma outra rede social que nos faz sentir próximos de quem está tão longe.

É engraçado que, por mais que o tempo também passe, as mudanças parecem ser menores por aqui. Você muda de casa, mas ainda faz o mesmo caminho para o trabalho. Muda de trabalho, faz novos amigos, mas os antigos ainda estão ali. A vida de quem vai se divide em duas, a de quem fica continua uma só.

É como se você continuasse na mesma batalha enquanto quem foi trava uma nova. Renovar, sair da zona de conforto ou começar do zero tem um significado diferente para quem fica e para quem foi.

Já fazem quatro anos que minha irmã-melhor-amiga não mora mais no Brasil e ainda é difícil de dizer e principalmente distinguir o que muda por aqui e o que muda por lá. Talvez porque mesmo existindo dois lados de uma história, quando duas vidas se separam, o que existe para ambos os lados é uma coisa só: a saudade.

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