Jardinagem de ideias

Todo mundo diz que é preciso aumentar a representatividade dos mais diversos tipos de pessoas. Seja por raça, gênero, cultura ou espectro de sexualidade, é um discurso cada vez mais presente esse de que é preciso ter espaço para o diferente. Ao mesmo tempo, as mesmas pessoas que defendem essa visão são as que atacam esse tipo de movimento, em um aparente paradoxo onde alguns tipos de diferente são bons e outros não.

Mesmo com a pluralização de vozes, os discursos predominantes ainda são da visão masculina, branca, heterossexual e cisnormativa. O espaço dado a toda a infinidade de outros tipos de pensamento é delimitado por uma espécie de cota (de gays, de mulheres, de asiáticos, de negros) e qualquer passo para fora disso é podada de maneira pouco sutil.

O cinema de Hollywood é uma boa maneira de enxergar esses conflitos, pois nesse meio não são apenas os efeitos especiais que são indecentes de tão exagerados. As opiniões também. Nos últimos anos a quantidade de filmes blockbusters com personagens centrais femininas disparou e praticamente todas essas produções receberam críticas pesadas por conta dessas escolhas.

Quando o segundo filme consecutivo da franquia bilionária Star Wars foi confirmado para ter uma protagonista mulher, não faltaram alegações de que isso era um exagero. Mais feroz ainda foi a revolta desencadeada contra a nova versão de Ghostbusters, onde o quarteto central masculino foi inteiro substituído por um elenco feminino interpretando cientistas caçadoras de assombrações. Aquilo foi quase a proclamação da ditatura das feministas assassinas de criancinhas.

O que mais chama a atenção nesses casos é que essas críticas não são feitas todas por um tipo de pessoa em especial. Não. Há mulheres criticando a tomada das heroínas sobre os heróis. São pessoas de todas as cores que dão chilique quando se espalha um boato de que o próximo ator à interpretar o agente 007 possa ser negro.

Mais do que uma questão de ignorância ou cultura do ódio, o que gera essas reações é a incapacidade de lidar com o diferente. O ser humano sobreviveu até os tempos modernos por ter uma zona de conforto capaz de proteger de perigos inesperados. Porém não vivemos mais num mundo que segue as regras primitivas com as quais nossos instintos estão sintonizados. Somos seres sociais complexos e o meio de convivência nos força a ter uma evolução no pensar e agir muito mais rápida do que qualquer capacidade evolutiva pode suportar.

Todo mundo nasce com medo do que é estranho. Mesmo quando o estranho é você mesmo, a primeira reação é sempre de medo, muitas vezes escondido sobre o ódio. Não queremos ser colocados fora do nosso conforto, mas o mundo plural nos expulsa dessa bolha imaginária onde todos pensam como nós e são como nós. Por mais desconstruído que queiramos nos tornar, sempre há algo que não conhecemos ainda e que vai causar repulsa. Nós temos repulsa do que é estranho, tanto quanto o outro tem repulsa ao ver que nós somos. É uma relação recíproca de imposição do meu sobre o do outro e vice-versa.

É fácil falar que é preciso dar espaço para todas as vozes quando tapamos os ouvidos assim que alguém diz a primeira palavra de um discurso que não é o nosso. É simples quando expulsamos do nosso círculo de convívio quem não é compatível com nosso jeito aberto e “prafrentex” de ser. Claro, eles não podem podar os outros no território onde quem faz a jardinagem de ideias somos nós.

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