3 Followers
·
Follow

O dia em que a Coreia do Norte estabeleceu o maior público da história da Luta Livre…e todos estavam em silêncio

Image for post
Image for post

Como um estudante de Relações Internacionais, acho fascinante quando dois dos tópicos que mais convivi desde o início da minha adolescência — luta livre e política — unem-se em uma única questão. É necessário ressaltar que a política se estende para além apenas para a atuação, como também atravessa as opiniões e a forma de ver o mundo. Viver é uma ação política. Em 2018 presenciamos um dos casos mais controversos entre os dois assuntos. O assassinado do jornalista saudita Jamal Khashoggi dentro da embaixada do país na Turquia — por agentes da própria Arábia Saudita — culminou com as semanas de preparação para a realização do Crown Jewel, evento da WWE em Riyadh, capital do reino saudita. De um lado, opinião pública e até membros do congresso estadunidense se opuseram a realização do evento. Em uma tentativa de afastar a imagem da companhia do atentado contra a vida de Jamal, a WWE tratou o Crown Jewel como um evento global, e, mesmo sob uma chuva de protestos, fez o evento, e ainda corou Shane McMahon como o melhor lutador do mundo.

Entretanto, as relações entre companhias de luta livre e governos ditatoriais não são recentes. Provavelmente, as melhores histórias sobre essas estranhas relações venham do país com menos possibilidades para tal. Trata-se da Coreia do Norte, que em 1995 sediou aquilo que nunca tinha feito antes: um evento de luta livre exclusivamente com lutadores norte-americanos e japoneses.

A década de 1990 marcou uma nova etapa para as relações internacionais. Pela primeira vez em quase meio século o mundo não estaria dividido entre dois polos de poder. O fim da União Soviética foi considerado marco inicial da Nova Ordem Mundial, como declarou o ex-presidente americano, George H. Bush. Para os fãs da luta livre mundial, entretanto, a Nova Ordem Mundial veio em 1996, quando Hulk Hogan uniu-se a Kevin Nash e Scott Hall em uma aliança maligna que tornaria a WCW um polo de poder dentro do pro-wrestling. Inclusive, o esporte vivia uma “guerra não-tão-fria-assim” entre a própria WCW e a WWF, que disputavam todas as segundas-feiras o coração do espectador com suas armas, inclusive com invasões. A D-Generation X, facção liderada por Triple H, indicada para o Hall of Fame deste ano, invadiu a WCW com seu tanque de guerra e seu humor infame.

Em 1995, antes da Nova Ordem Mundial se estabelecer dentro da luta livre e o sucesso da WCW alcançar novos patamares, o mundo presenciou a junção de três fatos importantes para o nosso evento: a tentativa de Antonio Inoki de seguir no parlamento japonês, a tentativa de Kim Jong-Il de se tornar um líder respeitado após a morte do líder supremo norte-coreano e seu pai, Kim Il-Sung, e a tentativa de Eric Bischoff de tornar sua empresa respeitada e forte o suficiente para enfrentar sua arquirrival, a WWF de Vince McMahon. Antonio Inoki era uma lenda dentro da luta livre mundial, sua fama dentro e fora dos ringues lhe garantiu uma posição política. Entretanto, suas supostas ligações com a máfia japonesa diminuíram sua popularidade na corrida eleitoral. Desde o armistício da Guerra entre as duas Coreias, Kim Il-Sung liderava o país, mas um ataque cardíaco levou o líder norte-coreano. Seu filho, Kim Jong-Il, tinha a missão de ser líder do país mais isolado do planeta, a sombra do grande líder do país que havia acabado de falecer, e no meio de uma grande onda de fome no país. Eric Bischoff queria tornar a WCW, nova promoção nacional de luta livre estadunidense, se tornar tão forte quanto a WWF, seja comprando seus lutadores, tomando sua audiência, etc.

Inoki, então, teve a ideia de convocar Eric Bischoff para um evento que uniria a New Japan Pro Wrestling e a World Championship Wrestling em um evento global em um grande estádio para milhares de pessoas na Coreia do Norte. O grande problema era que, naquela altura, Japão e Estados Unidos eram os maiores inimigos do país, e era quase impossível a entrada de cidadãos desses países dentro do regime. O resultado não poderia ser mais óbvio: Kim Jong-Il aceitou a proposta. Na década de 1990, três excêntricos líderes fazendo um acordo tão excêntrico quanto não seria uma novidade nenhuma para o mundo. Inoki se prontificou como um dos lutadores presentes no evento principal, que ele próprio considerava um “Evento para a Paz”. Se de um lado tínhamos uma das maiores lendas vivas do puroresu, do outro tivemos o não de Hulk Hogan, que àquela altura ainda se mostrava como um representante do real estadunidense. Não que em 2019 ele não seja, mas naquela época isso ainda era considerado legal. Sendo assim, ninguém melhor que Ric Flair para aceitar essa loucura e ser o desafiante de Inoki na Coreia.

A Coreia do Norte não possuía nenhum tipo de entretenimento que não fosse produzido pelo regime, ou que tivesse relação com o regime. Sendo assim, a luta livre profissional não era algo popular no país, nem ao menos existia. Um esporte que possuía seus principais nomes nos Estados Unidos não entraria com facilidade na Coreia do Norte. Então, como 190 mil pessoas estiveram presentes em Pyongyang, dentro do May Day Stadium para assistir o evento? Tratando-se de um regime totalitário, isso se torna mais simples. As pessoas foram obrigadas a atenderem o evento, o tornando assim o show de luta livre com maior público já registrado na história. Bem, isso foi no segundo dia de eventos, porque no primeiro apenas 165 mil pessoas foram ao estádio.

Image for post
Image for post

Após a chegada em um avião militar, a retenção dos passaportes e o interrogatório a Scott Norton por falar mal do país em uma briga no telefone com sua esposa, os lutadores foram para o evento. Dois dias de luta livre entre norte-americanos e japoneses, que contou com lutadores como Steiner Brothers, 2 Cold Scorpio, Yuji Nagata, Bull Nakano, Manami Toyota entre outras estrelas da época. Porém, como os norte-coreanos nada sabiam sobre luta livre, nenhuma reação foi ouvida da plateia durante as lutas, até o evento principal. Antonio Inoki, munido da malandragem, veio ao ringue homenageando Rikidozan, lenda do puroresu, mentor do próprio Inoki e ídolo na Coreia do Norte. Como um lutador pode ser ídolo no regime se lá não havia pro-wrestling? A resposta é simples. Rikidozan era norte-coreano, e após a sua morte em um bar, Kim Il-Sung utilizou o lutador como um herói nacional, que pisava nos ringues para derrotar japoneses e americanos pelo o mundo afora. Isso fez a torcida apoiar Inoki e vaiar Flair, tendo assim um clássico combate de luta livre, com vilões e mocinhos. No final, Inoki venceu, o evento chegou ao seu fim, e, para o mundo, não houve a menor relevância. Hoje, o evento é tratado como um tesouro de tão surreal que foi essa combinação. A WCW não existe, Inoki não conseguiu alavancar sua votação e Kim Jong-Il faleceu na década de 2010, deixando o regime para o seu filho não menos excêntrico, Kim Jong-Un. E toda essa aventura você confere no vídeo sobre esses acontecimentos produzido pelo usuário Kento Bento, que inspirou esse texto.

Written by

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store