Eu tô cansado de entretenimento preguiçoso

Ou: que saudade do Brendan Fraser

Ontem a noite eu fui assistir A Múmia (2017, Universal). Sim, eu sei, eu sei: eu deveria ter assistido Mulher-Maravilha (de semana que vem, não passa!). Mas era de graça, com um dos meus melhores amigos [abraço, Guilherme], então eu disse a mim mesmo: ‘’Por que não? Pode ser divertido’’.

Eu não poderia estar mais errado.

Primeiramente, um pequeno resumo do filme: A Múmia é o primeiro filme da série ‘’Dark Universe’’, produzida pela Universal, que promete unir todos os Monstros Clássicos do estúdio. Nick (Tom Cruise) e Vail (Jake Johnson) são dois soldados americanos no Oriente Médio que desviam de suas missões para roubarem tesouros e artefatos de valor histórico pra depois venderem no mercado negro. Sua próxima missão é um tesouro escondido no Iraque, como apontado no mapa que Nick roubou da Dra. Jenny Halsey (Annabelle Wallace) após uma noite de amor. A tarefa dá errado quando eles são surpreendidos por rebeldes Iraquianos no pequeno vilarejo e os dois são obrigados a chamar reforço aéreo, mesmo com o risco de responderem em Corte Marcial por desvio de missão. O ataque de mísseis americanos revela a tumba de Ahmanet (Sofia Boutella), a princesa esquecida e amaldiçoada do Egito: tão cruel que foi enterrada a 1600 km dali. E agora, ela busca vingança e seu escolhido para ser o novo hospedeiro de Set, o Deus da Morte egípcio.

Eu me considero um fã de cinema há muito, muito tempo. E nesse tempo todo de ‘assiste filme | pesquisa | lê sobre | discute | escreve’ eu aprendi que tem duas coisas que um filme, por pior que seja, NÃO pode fazer:

  1. Te chamar de burro
  2. Ser entediante

A Múmia acerta em fazer os dois, e falha em ser a aventura/terror que se propusera. Vira apenas um início fraco e extremamente inflado de uma franquia que me dá 10 tipos de medo saber como vai seguir.

Vou descrever a cena que foi o meu momento ‘desapego’ do filme: há toda uma introdução de personagem pra mostrar o quanto a Dra. Jenny é uma arqueologista e historiadora fodona e excelente no que faz. Até aí, tudo certo: é uma das personagens principais e ela é extremamente importante e única na narrativa. Ok? Ok.

Lá pelos 40 minutos de filme, Ahmanet começa, juntamente ao exército de zumbis que ela cria, a seguir Nick e Jenny por uma floresta. Perseguição, ‘’tensão’’, zumbis pra todo lado, capota daqui, capota de lá, os dois sobrevivem. Ahmanet reaparece e o personagem de Tom Cruise resolve encará-la na porrada. Nisso, a câmera corta pra Jenny, aos pulinhos e gritinhos depois de sobreviver a um terrível acidente em que ela provavelmente teria morrido, berrando: ‘’PEGA ELA, NICK! PEGA ELA!’’

Sério? Tipo, sério?

Pra citar uma frase do filme da Múmia mais legal que esse (o de 99 com o Brendan Fraser e a Rachel Weisz): ‘’Paciência é uma virtude. Mas agora, não é não’’.

Quando você pretende ser roteirista, uma lição básica é que, ao criar um personagem, além da verossimilhança, ele tem que a) ser fiel ao que você imaginou e b) passar por um ‘arco’, ou seja: sair do estado 1 como pessoa para o 2 (por exemplo, Michael Corleone sai de um rapaz que serviu na Segunda Guerra Mundial e recém inserido novamente na sua vida familiar para o novo chefe da máfia no lugar de seu pai ao final do primeiro Poderoso Chefão).

E a cena que eu narrei acima ilustra como não há, de forma alguma, fidelidade ao que se foi apresentado, pois personagens ora pensam e agem de um jeito, ora mudam completamente e tomam decisões estúpidas e sem sentido nenhum com a trama, apenas pela necessidade de mover a história pra frente. E o pior: nenhum deles desperta simpatia alguma do espectador. Nem Tom Cruise, uma das maiores e mais carismáticas estrelas de Hollywood, consegue segurar o rojão como o ‘’babaca-porém-sedutor-mas-com-bom-coração’’ que deveria entregar.

E, por falar em entregar, não se preocupe em não entender a história: a quantidade de flashbacks durante o filme todo que explicam os objetivos de Ahmanet é infindável. Se por um acaso, sabe Deus por que motivo (eu rezo que seja porque você estava beijando alguém ou no banheiro lavando a mão) você ainda NÃO entendeu a história do filme, não se preocupe: Vail, o alívio cômico, é transformado numa espécie de ‘isca amaldiçoada’ para Nick e também vai te explicar o plot incontáveis vezes!

Ainda não rolou? Fica tranquilo: O Dr. Jekyll de Russell Crowe vai aparecer lá pelas tantas e também deixar bem claro o que está acontecendo. Lembra o que eu falei sobre te chamar de burro? Então.

Veja, eu não tenho muito problema com diálogos expositivos. Os irmãos Nolan (Christopher e Jonathan) fazem o tempo todo e ok, por que eles sabem desenvolver outros aspectos e conduzir a história de um jeito que isso não incomode ou enfraqueça a narrativa. E nem torne o filme demasiado entediante.

Saindo da questão do roteiro e indo pro produto final em si, tenho que dar os parabéns ao diretor Alex Kurtzman por, diferente de uma infinidade de blockbusters por aí, saber ao menos conduzir cenas de ação. Veja, por que filmes como Transformers (além de extremamente ofensivos) são insuportáveis de assistir? Porque você não tem noção alguma do que está acontecendo nas cenas de ação. Não há um foco, não temos um personagem ou personagens para nos estabilizarem nas pontas que estão se desenrolando e tem uma porrada de cortes O TEMPO. TODO. Quer ver como saber cortar uma cena é importante? Pega esse take do Liam Neeson PULANDO UMA CERCA em Busca Implacável 2:

Eu contei TREZE CORTES. Pra pular uma cerca. Precisava? Não precisava. É a busca por um falso dinamismo que vem assolando blockbusters e filmes de ação há algum tempo já.

Agora, pra dar um bom exemplo do que eu falei (cena de ação foda com foco) é só assistir a sequência no clube de John Wick, um dos melhores filmes de ação dos últimos anos:

Aqui, você tem uma noção muito clara do que tá rolando o tempo inteiro.

Mas nada disso adianta se, como eu já disse, você tiver um roteiro terrível, personagens fracos e a necessidade o tempo inteiro de criar ex-machinas que movam a história.

Isso que ainda nem entramos na questão da vilã, a Múmia em si, que deveria ser a mais importante do filme e que me deixou muito puto. Uma personagem rasa, com um potencial enorme de desenvolvimento (mas ficamos na desculpa da ‘’sede de poder’’ e a famigerada ‘’pura maldade’’ de sempre) que, no que parece uma piada de extremo mau gosto pra quem foi mostrada como extremamente poderosa e calculista, precisa de homens para conseguir o que quer. É o mesmo problema da Magia de Esquadrão Suicida, outro filme igualmente ruim. Em A Múmia, pelo menos, a personagem de Sofia Boutella ainda fala e aparece 80% do filme, diferente da pobre Cara Delevingne que entra muda e sai calada em Suicide Squad.

Mas eu já havia desapegado do filme e não podia esperar muito, não é mesmo?

O que nos leva ainda a outra questão, e essa muito mais importante que as outras, que é: ‘’Porque esse filme existe?’’ Eu poderia me delongar mais aqui, mas vou deixar esse vídeo do canal Nerdwriter chamado ‘’The Epidemic of Passable Movies’’ (não tem legenda):

Nunca pensei que eu diria isso e encerraria um texto assim, mas me deu muita saudade do Brendan Fraser.

Se você quer saber mais sobre como editar e produzir cenas de ação, eu recomendo também o vídeo Helm’s Deep: How to film an epic battle, também do Nerdwriter

Ainda sobre edição, tem esse vídeo legal do Every Frame a Painting chamado ‘’How does and editor think and feel’’

E é isso! Espero que vocês tenham curtido. Feedbacks são permitidos e incentivados.

Até a próxima :)