Prólogo

‘’Estão tacando fogo de novo nessa merda’’, disse João Carlos aquela noite. Mais uma noite no Bailão Madrugueiro, ali próximo à BR 116, no Pinheirinho e próximo do Beco Pluma, como era conhecida a ruazinha da favela duas ruas pra cima do Madrugueiro.

Ali, naquele beco, era comum o uso de fogo para acabar com o lixo que era juntado num canto, e aquele cheiro misturando fumaça e chorume subia e passava as portas do baile quase toda quarta-feira a noite. João Carlos não suportava mais: ia pedir demissão dali dois dias, depois do pagamento do mês, dia 5. Tinha juntado dinheiro suficiente para comprar um carrinho novo e arrumar o banheiro que a ‘’patroa’’ reclamava. Assim que pensou nela, ela ligou. Ele atendeu, mas não conseguia ouvir direito com toda aquela música gauchesca tocando.

-Tá tudo certo aí? — Ele tentou gritar.

-Você… sai… alô? João? — A ligação cortava muito.

-Não dá pra te ouvir agora, eu te ligo mais tarde — João respondeu meio secamente, mas sabia que aquilo não a deixaria magoada.

Assim que desligou e colocou o celular no bolso, ouviu algo bem baixinho, como se fosse um grito abafado, e não dava para saber se vinha de dentro ou de fora. Tinha a audição muito boa, apesar da idade já um pouco avançada. Estranhou aquilo e virou levemente o pescoço para trás, voltando-se para a porta que ele cuidava.

Repassaram para João a informação que haviam no mínimo 600 pessoas ali. Lotação máxima, dinheiro garantido no fim da noite e som alto até às 5 da manhã. Essas mesmas 600 pessoas, envoltas em música ensurdecedora, bebida e fumaça de cigarro (além do cheiro que vinha do beco) não ouviram o estalo seco da porta batendo nas costas de João. Só ele ouviu, sentiu o impacto e caiu de joelhos no chão, tentando se equilibrar e ficando assustado.

Mas essas 600 pessoas viram tudo: um clarão entrando baile adentro, uma grande bola de fogo. Um corpo em chamas entrando e correndo até o meio da pista de dança. O caos da diversão virou caos pelo terror daquela cena que ninguém esperava ver quando saiu de casa para se divertir, mas tudo era real. Cheiro de cigarro, cheiro de lixo queimado, cheiro de pele queimando.

Seja lá quem fosse, queimava; se movia sem direção e tentava gritar por socorro.

Foi rápido, foi assustador, algo que assombraria os clientes da casa noturna por meses e meses.

João, prostrado de joelhos desde o impacto, sentiu o corpo todo tremer e parar subitamente. O seu coração também parou. O corpo em chamas também.

- ‘’Carla… preciso ligar’’. Caiu no chão, imóvel: era um infarto.

‘’Estão tacando fogo de novo nessa merda’’, pensou de novo, por algum motivo, uma última vez.

João caiu no chão; o coração também, o corpo em chamas, também.

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