sINe MEMORIAM— um conto quase perdido

I
Nos últimos 8 anos ouvi muitas pessoas falando a respeito de “vítimas da sociedade”, mas estou certo de que até agora não a conheceram. E este é o motivo que me leva a escrever, eu os conheci.

Henrique e Laura eram uma família feliz com seus dois filhos Daniel e Isabela. 
Quem são exatamente não é de nosso conhecimento, mas saibam que a origem de seus nomes são tudo o que eu posso lhes afirmar, e futuramente lhes darei mais detalhes sobre isso.
O que conheço sobre eles são resquícios de alguma coisa que chamam de lembrança. Mas eu passei a chamar de lar, pois é o único lugar que repouso, com segurança, minha mente.

11 de setembro de 2011, fazia 2 meses que eu estava no hospital e não sabia, quando finalmente acordei. Eu não conhecia ninguém a minha volta, aqueles tubos e aparelhos me espantaram. Tudo estava errado, eu não sabia de mais nada sobre aquele homem que estava sobre a maca, e sim, era eu. Não havia nada a que eu pudesse recorrer como alguma explicação, nenhum indício de razão. As enfermeiras faziam anotações, observando o computador ligado a mim, até que uma delas resolveu falar comigo:

— Senhor -e disse um nome ao qual não me identifiquei-, finalmente o senhor acordou, parece que de agora em diante ficará bem.

Ela esperava que eu respondesse alguma coisa, mas meu silêncio, e provavelmente minha cara de espanto, afirmaram que eu não falaria nada.

— Pois bem, -continuou o monólogo- hoje faz dois meses que deram entrada do senhor aqui. Compreendo que esteja assustado.

Em um instante tive meu primeiro flash de memória. Em primeira pessoa me vi desfazendo a mesa do jantar, rindo como se algo muito engraçado estivesse acontecendo, enquanto eu olhava uma mulher agachada, também rindo, com uma linda menininha abraçada e um menininho vindo em sua direção com os braços erguidos e com um grito grosso e forçado. Aquela primeira cena de vida tirou da minha alma o sorriso mais sincero que eu já dei até agora, e pelo visto a felicidade tinha sido estampada em meu rosto pois a enfermeira fez um comentário, interrompendo meu lar. 
Foi tão inoportuno que nem compreendi o que dissera, apenas que havia me interrompido. E aproveitando o inoportuno perguntei se havia mais alguém comigo. Lógico que eu sabia que sim, mas queria ouvir de alguém que tivesse mais certeza que eu.
Porém, para minha desgraça, o semblante da enfermeira se fecha, quase que aterrorizada, e todos dentro do quarto trocam olhares alertas e questionadores uns com os outros. E o semblante de todos pousou sobre mim.

— O senhor precisa descansar -disse outra enfermeira.
 — Isso! Logo, logo o doutor lhe fará uma visita.

A cada tentativa de distração a minha certeza se afundava mais.

— Diga-me alguma coisa sobre o que pergunto! Cadê aquela mulher e as duas crianças? -eu disse como se todos ali tivessem visto a mesma cena que eu.

Foi o momento de meu segundo flash. Este, porém, trouxe-me morte. Vi três cenas diferentes, também as vi em primeira pessoa, mas não havia nenhuma emoção como antes. Na primeira cena deste flash eu vi aquela mulher em desespero. Do meu ponto de vista minha cabeça era forçada para cima e meus olhos acompanhavam a cena em um ângulo para baixo enquanto minha boca era pressionada por uma mão que segurava meu rosto por trás, mantendo-me pressionado a um outro corpo, enquanto o braço direito deste corpo se estendia por cima de meu ombro, empunhando uma pistola na direção daquela mulher que olhava para mim com o olhar amedrontado, que eu jamais encontrei igual desde então, sua boca sem som parecia suplicar e escancarar um “não” quando o braço sobre mim apertou o gatilho. A segunda cena a dor foi semelhante, porém, diante das duas crianças, e com dois tiros. Na terceira cena eu era surrado por dois sujeitos, mas não havia mais dor, a dor já me atingira nas duas cenas anteriores e não se repetiria nunca mais.

Depois daquele momento eu compreendi toda a distração com que tentavam me envolver. Bastou o silêncio, eu mesmo não quis mais ouvir nada de ninguém.

Mais ou menos três horas depois recebo a minha primeira e única visita, era o doutor que a enfermeira anunciara. Ele falou algumas coisas que não me importavam. Em resumo, eu estava de alta. 
Neguei assinar os papéis que me apresentavam, até por que eu não sabia nem o que ou em nome de quem os assinar. Eu não alegaria nada do que não soubesse. 
Assim fui encaminhado até a porta principal do hospital. Sem ninguém ou nada que me fizesse sentir vivo. Ao menos a porta automática reconheceu minha presença, e só assim pude ter certeza de que eu realmente estava ali.

Caminhei desinteressado por entre as ruas, nada me indicava alguma coisa útil até que vi uma banca de jornal. Foi aí que vi a data, 11 de setembro de 2011.

— Boa tarde, meu senhor, -disse com educação o jornaleiro- deseja alguma coisa? Jornal diário, pelo que percebo.

Apenas o agradeci negando com um balançar de cabeça e continuei minha caminhada sem destino.
No final daquela tarde decidi investigar a minha própria história. 
No meu relato inicial eu ocultei a explicação que várias pessoas tentaram me dar sobre eu mesmo, mas as ocultei por julgá-las irrelevantes e falsas. Eu percebi que se quisesse saber a verdade deveria investigá-la por mim mesmo.

II
Nos dois dias seguintes eu já estava convencido de que não haveria lugar para ir e na rua arrumei meu primeiro serviço; segurança noturno. Passei a “dormir” na vitrine da padaria. Quando se está na rua não se dorme, qualquer suspiro é alerta, qualquer sombra é gente. Conversei por algum tempo com o dono da padaria e o convenci que minha intenção era clara e não haviam favores que eu me pagassem, a não ser uma paga real e honesta pelo meu serviço.
Eu não vou enaltecer nomes, mas mesmo o ocultando posso dizer como era um cidadão exemplar e trabalhador. E segundo ele foi por estas mesmas características que ele me contratou, dando-me também uma tarefa pela manhã; varrendo sua calçada e ilustrando as janelas da vitrine. Na parte da tarde eu me abrigava na biblioteca municipal, um prédio bem grande e antigo. A biblioteca não se tornou apenas um abrigo para as minhas tardes, mas um local de estudo e trabalho pessoal. Foi em minhas pesquisas que nomeei o meu lar, por um livro de significado dos nomes. Nas páginas deste livro eu mergulhei abraçando minha esposa e filhos.

Henrique, este foi o nome que me dei. Significa “senhor do lar”, “príncipe do lar” ou “governante da casa”. 
Laura, a mulher, — Significa “loureiro”, “vitoriosa”, “triunfadora”. 
Daniel — “o Senhor é meu juiz”, “Deus é meu juiz”. 
Isabela — “casta”, “pura”, “Deus é juramento” ou “consagrada à Deus”.

O “nada” que eu conhecia da minha família me fazia batizá-los com estes nomes, seus significados traduzem o que trago de cada um. A mulher por certo era a vitória daquele lar, eu vi como a menininha corria e se aconchegava em seus braços ao correr do irmão. Os filhos, eu não os podia traduzir por nada que não estivesse ligado a Deus, por isso meu Daniel afirmava Sua justiça e Isabela à Sua consagração e pureza. Com dor, porém, Henrique não existia mais. Tiraram de mim meu significado e substituíram por outro. Hades.

Não tenha dó, muitas pessoas só pensam isso quando conhecem minha história, mas não é a quero. Eu quero justiça.

Na mesma biblioteca procurei os jornais arquivados. Se as cenas que eu vira aconteceram, foi um crime, e alguém deveria ter relatado. Peguei todos os jornais datados de 2 e 3 meses passados e revirei suas notícias. Em apenas 3 deles encontrei alguma nota sobre um assalto residencial com 3 mortes e um ferido em estado grave. E um em especial continha o título “Pai de família reage e assalto termina em tragédia”. Tão seco e tão sórdido que por um momento esqueci a dor de meu lar. Não sei se nos meses que passei desacordado aconteceu alguma lavagem cerebral coletiva na sociedade, mas não consegui entender aquele anúncio. Se eu não reagisse… o assalto seria um sucesso? A tragédia começara no momento em que invadiram minha casa.

Ouvi o sino da Igreja bater. Era hora de ir para o trabalho.

III
Continuei como segurança noturno, varredor e limpador de vitrine por um ano e meio, quando o dono da padaria começou a me ensinar a arte do pão. As lições começavam de madrugada, em torno das 4 horas da manhã, depois disso eu trabalhava no balcão até 11h. Na parte da tarde eu continuava indo à biblioteca, porém, com meu tempo reduzido, pois às 16h eu voltava ao trabalho. Nesta época eu não dormia mais na rua, passei a dormir em uma sala que se fizera quarto, no fundo da padaria.

Na noite do dia 18 de abril de 2013 ouço um barulho na parte da frente. Acordei assustado, mas levantei apenas sonolento, imaginando ser hora das lições da massa do pão, quando me deparo com dois sujeitos dentro da padaria. Ao me ver gritaram para que eu pegasse tudo o que fosse de valor, apontando, cada um, uma arma de fogo para minha cabeça.

Um terceiro flash. Não eram dois sujeitos, eram os dois sujeitos. 
Eu os reconheci. Meu coração nunca pulsou tanto sangue em meu corpo. Eles gesticulavam enfatizando a presença da arma em minha direção, meus olhos eram fixos nos seus, fitei-os um a um. Se virasse notícia seria afirmando o sucesso do assalto, mas nem isso aconteceu.
Posso ver até agora os assassinos de meu lar passando pela minha história mais uma vez, com chance de passar mais uma e mais outra, enquanto trago de meu lar um único sorriso, sorriso que ficou para trás.

Dos sujeitos há quem os chamem de vítimas da sociedade, mas é como eu disse, “Não sei se nos meses que passei desacordado aconteceu alguma lavagem cerebral coletiva na sociedade”.

Chamo-me Hades, o invisível. Aquele que provou do único direito humano: a morte.