Suicídio Assistido

Neste instante, ainda existo. Como ser pensante, logo sonho. Flutuo no vácuo e o frio corrói tanto que já não sinto dor.

Não há som ou talvez haja e eu é que não possa ouvir. Sou digno de ouvir o som do universo? A luz se distancia de mim e não sei aonde vou. Apenas flutuo e pela primeira vez sinto que faço parte daquilo que sempre desejei descobrir. Eu sou a matéria sem nenhum sentido de existência. E ao meu redor, o infinito. Como algo, sou parte do que tento compreender. E como consciência… Sou a calma que aceita a morte e tranquiliza a alma.

Ainda respiro, mas não continuarei a fazê-lo por muito tempo. Na verdade, até esse gigante que rege nossas vidas já não faz sentido. Em breve, acabará o oxigênio, mas antes que meu corpo exploda arrancarei o capacete. O fim será rápido e me alegro com a beleza de tal fato. É decadente ou glorioso?

Não existe superfície.

Uma última vez eu olharei para casa e agora me despeço dela, pois o Universo se expande e é minha vez de acompanhá-lo.

Como serei lembrado a partir de agora? O homem que sumiu no espaço? Ou o que descobriu algo que nenhum outro conseguiu? A morte é bela quando se aceita o que está por vir. A dor, o medo, arrependimento e agonia. Tudo passa após um tempo. Embora para alguns seja mais difícil de aceitar. Não existe opção aqui. Ou luto em agonia por um segundo a mais ou contemplo o que me resta e então me entrego ao meu destino.

Devo confessar que a ideia engrandece meu orgulho, pois de certa maneira é um fim digno de algo maior que o homem. Sou maior? Sou Deus? Sou o caído? Já não sinto meu corpo. Minha mente flutua como uma consciência universal. E se Deus não for um corpo? Não for constituído de matéria, logo não possui sexo, cor, dimensão ou beleza.

Deus é uma mente? Me anima a ideia. E se a imagem semelhança não se referir à forma, é uma metáfora à capacidade de pensar. A nossa mente é uma extensão de Deus? Cada homem é uma réplica dele ou um pedaço dele? Varias partes de apenas um. Deus, portanto, teria consciência de que é Deus?

Só lamento não estar diante de um buraco negro. O que estaria do outro lado?

Já respiro com dificuldade. Chegou a hora. E de um milhão de pensamentos que flutuam como eu, neste instante, o que será o último deles está destinado à minha família.

Quando tirar o capacete a pressão do vácuo entrará em meu corpo e me expandirá como uma estrela que morre. Sem querer, deixo escapar lágrimas e elas sobem pela face. Desprendo o capacete e o lanço contra o nada.

Adeus.

Originalmente publicado em: http://llvictor13.wixsite.com/odevaneio