— obra sem crédito —

#LutopeloMuseu

Como rompemos com essa barbárie, essa tragédia incomensurável que ficará gravada para sempre na história das civilizações?

Não foi acidente foi assassinato!

É indescritível! O que se impõe diante de nós, brasileiros, é simplesmente indescritível. De fato, o fogo não tomou o corpo, a capa corporal, de ninguém. Ótimo!
Mas não se enganem, ceifou um número incalculável de vidas. Junto com o acervo, destruiu o trabalho e o sentido da vida de muitos pesquisadores e arquivistas vivos e mortos.
Imagine, por exemplo, Heloísa Alberto Torres (1895–1977) que trabalhou com energia e afinco por toda sua vida, ao longo de décadas, para compor o belo acervo etnográfico da instituição e formar as bases de um dos mais esplêndidos centros de pesquisa em Antropologia já edificados na história humana.
Sou antropólogo, já circulei por muitas bibliotecas, museus e arquivos, inclusive o finado Museu Nacional. Conheço bem o zelo tremendo que os arquivistas e museólogos tem com as peças sob seus cuidados. Um zelo tal que um desatento qualquer poderia tomar por chatice injustificada. Mas não, o curador é zeloso e até paranoico porque conhece profundamente o valor incomensurável daquilo que cuida. É incomensurável porque singular, único, insubstituível: tem vida e espírito próprio.
Não existe reposição porque é intangível. Instituições como bibliotecas, arquivos e museus foram inventados por grandes civilizações do passado para curar a vida do espírito. No cemitério, resguardamos os corpos que apodrecerão em baixo da terra. Para lugares como o Museu Nacional, enviamos e cuidamos diariamente do espírito. Acumulamos acervos inestimáveis de saberes que conectam os mortos, os vivos e as gerações futuras, dando sentido à própria existência coletiva.
Por volta de 330 antes de Cristo, o Império Macedônio, liderado por Alexandre, discípulo de Aristóteles, deixou muitos mortos pelo caminho para dominar Eurásia e o norte da África. Uma das justificativas formuladas pelo filósofo para a tamanha guerra de expansão era garantir a sobrevivência e continuidade da civilização helênica, sob ameaça de morte pelo Império Persa.
A filosofia, a arte, a academia. Era preciso garantir a manutenção e continuidade do seu espírito coletivo gravado em pedra e papel. Viver de corpo presente como escravos, sem o legado dos antepassados, seria pior que a própria morte; o que também justificava morrer lutando em combate, juntos, corpo a corpo. Lugares como a Biblioteca de Alexandria — onde se pretendia guardar todo saber já produzido — eram a medida e a razão de ser daquele projeto que deixou muito sangue pelo caminho.
Cerca de 900 anos depois, no século VII, a Biblioteca de Alexandria foi deliberadamente destruída, provavelmente a mando do califa ortodoxo que tomara o Egito, Omar. Diz-se que demorou mais de seis meses para o fogo destruir todo saber acumulado papel.
Por um lado, tratava-se de desferir um golpe de morte no espírito do conquistado; a suposta retribuição justa da desforra sofrida séculos atrás. Por outro, era a afirmação do fundamentalismo religioso: “não precisamos de outro livro que não o Alcorão”. Por isso, segundo o historiador árabe Ibn Khaldun (1332–1406), o califa radical destruiu também a biblioteca real de sua própria sua terra natal, a Pérsia (atual Irã), além de outras menores.
A destruição da Biblioteca de Alexandria provou que as suspeitas de aniquilação justificadas por Aristóteles, tinham fundamento. Ele conhecia este tipo de guerra em que ganhar é apunhalar o espírito do outro, materializado em pedra e papel, guardado em bibliotecas e museus.
Se engana quem acha que esse tipo de estupidez é uma especificidade de radicais árabes ou de tempos muito antigos. Na Europa da Idade Média, também em nome dos fundamentos da religião, a Santa Inquisição Católica queimava os livros do Index e seus escritores na fogueira. Os jovens alemães nazistas, estimulados até por grandes filósofos, queimaram livros em nome do III Reich. Chineses comunistas o fizeram em nome da revolução cultural liderada por Mao: queimar a obra é queimar o espírito dos opressores. O mesmo tipo de guerra vivida por Aristóteles continua no Oriente Médio e Ásia Central. Talibãs e outros fundamentalistas árabes destroem os Grandes Budas, museus e bibliotecas no Afeganistão, Iraque ou Síria. Os modernos norte-americanos fazem o mesmo com seus “bombardeios cirúrgicos” em nome da democracia mundial, ou melhor, de seu império global capitalista.
Acredito que entre nós, brasileiros contemporâneos, tendemos a concordar que todas estas manifestações de guerra são atos de barbárie. Apesar das justificativas reivindicadas, o verdadeiro fundamento da destruição de museus e bibliotecas em guerras de conquista é aniquilar o espírito coletivo do outro. Edificar o Império do Um sobre o múltiplo.
Aqui na América do Sul, no Brasil, vivemos a boa distância destas grandes guerras que assolam a milênios aquelas regiões do planeta. Mesmo assim nosso Museu Histórico Nacional foi queimado deliberamente. Aqui, diferente de todos os outros casos, não houve justificativa nem agente a reivindicar o ato. Foi, simplesmente, a negligência impessoal de sucessivas gestões. Temer, o vampiro, foi apenas último carrasco-coveiro.
Foi a banalidade de nossa rotina absurda. Não há dúvidas de que foi assassinato. Deliberada falta de cuidado leva à morte, todos sabemos. Nossa situação parece ser mais difícil de entender porque sequer há justificativa retórica.
Essa perda não foi infligida pelo outro em nome da continuidade da “nossa religião, nosso povo…”. É algo entre a autoimolação e a morte por abandono.
Que República é esta que mata o espírito de seu próprio povo por inanição e falta de ar? Essas Oligarquias patéticas que controlam nosso país, e matam em nome nada, não reivindicam nada além de sua hipocrisia. Sua vitória é a morte do projeto do povo por inanição.
Temer é a imagem perfeita desse momento porque como vampiro, personifica como poucos o mal que drena a nós, o povo, a cada dia.
Mas em nome do quê? Mais dinheirinho para mansões bregas em condomínios cercados? Viagens fugazes para Paris e fotos felizes na frente do Louvre? Como entender e romper com tamanha barbárie que é de todos e de ninguém? Como entender o modo brasileiro de banalizar o mal? Como rompemos com essa barbárie, essa tragédia incomensurável que ficará gravada para sempre na história das civilizações?

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