O que somos nós?

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Escrever um pouco a cada dia. Essa foi a proposta. E por que escrever? Para registrar o pensamento, diria Flusser. Ele presava pelo pensamento e via na escrita o único meio de fazer o pensamento valer algo. No dia de hoje tenho pensado muito sobre as relações humanas, como nos relacionamos com as pessoas e como nos comportamos diante do convívio social. É possível e até prudente dizer que nos dias de hoje existe um aumento da quantidade de pessoas em que estamos em contato diariamente, mas isso virtualmente. Acompanhamos a vida de centenas de pessoas. Sabemos o que elas comem, onde passam as férias, com quem se relacionam. Na internet todos são felizes, bonitos, inteligentes, determinados, capazes. Isso me lembra o poema do Fernando Pessoa — Poema em linha reta — que é mais ou menos como me sinto as vezes navegando por ai. Mas diante desse tanto de pessoas, com quais você tem uma relação relevante? Quais desses você realmente se importa ao ponto de (OHH!) sair do mundo virtual e se encontrar na doce e crua realidade da vida. E ainda mais, por quantos desses você se proporia a fazer algo, algo de relevante? Sim, por que não?

É muita preocupação com a exposição, eu mesmo já caí nessa algumas vezes, de em ir em tal lugar ou fazer tal coisa e o que me vem primeiro a mente é “vou tirar uma foto para postar”. O momento está sempre além dele mesmo. Não penso que seja errado querer mostrar o melhor lado, buscar seu melhor angulo, porém a vida é mais do que isso. Vivenciando isso dessa maneira acabamos nos perdendo da noção de fracasso, de derrota. O mito do Herói, a força da imposição do sucesso, da vida bem sucedida é muito presente no mundo em que vivemos e gera muita frustração quando não conseguimos atingir esse padrão. Por isso que eu falei no outro texto (vou sempre fazer referências aos textos anteriores pois todo pensamento está conectado) sobre a importância de andar na rua. Talvez eu escreva um texto só sobre isso, contando os relatos vividos, as cenas. Essa caminhada te aproxima muito da realidade, principalmente dependo dos lugares que passamos. No mundo virtual, apesar de termos essa noção de liberdade e pluralidade existe muita segregação e manipulação das informações. Procure andar a pé por um bairro pobre de sua cidade (a mas eu vou ser assaltado — pelo amor de Deus, e por pensar que existe ainda mais segregação) e depois me conte.

É complicado ficar escrevendo essas coisas aqui que nem eu sei ao certo o que são, para mim são como uma avalanche de palavras que saem do pensamento. O pensamento é assim, inteiro — pegando emprestado a ideia do velho William James — ele acontece, não há uma separação entre as coisas do pensamento e sim uma seleção. Somos todos como escultores do pensamento, moldando as ideias.