Um show, um baterista e uma lição
Tem uns dias ai (23 de Julho, caso alguem leia isso em um futuro pós-apocaliptico) eu fui em um show de jazz. Não lembro exatamente o nome da pessoa, era um trombonista e foi um bom show, tinham carisma, rolou um In A Walked Bud, uma música composta em homenagem ao Parque da Aclimação, a nostalgia de voltar a ver um show no CCSP numa salinha que não ia tinha alguns anos e todo o resto que compõe o pacote básico shows versão 20xx, incluindo fotinhas em rede sociais (just to prove that they really existed) e é isso ai.
E por que isso é digno de um texto? Olha, não é e não precisa ser digno de texto, mas houve um algo e era o sorriso de alguem.
Quando se fala em show de jazz e CCSP e logo se pensa nas pessoas sentadas, batendo seu pézinho e aquela baixa euforia e alta contemplação. Sou um sujeito pouco euforico e relativamente contemplativo, então nada me afeta, mas rolou pra alem da música um brilho que era o baterista, que igual a banda de apoio era brasileiro, parecia viver o seu próprio mundo e ritmo separado da plateia e suas reações. Sorria e trocava olhares pro resto da banda, soando pessoal e acho que lá pelas tantas todos presentes tavam afeiçoados.
Tem uns dias atras uma conversa entre amigos sobre presença no palco e de cara pensei nesse baterista. É mais dificil né? Você é o baterista em um show de jazz, em uma sala escura, com todos sentados e comportados e talvez em um, ou 2, ou 10, consegue dar aquela incediada nas pessoas por simplesmente estar se curtindo, curtindo os momentos dos coleguinhas de banda, sorrindo pra acertos e quebrando aquela expectativa formal que o ambiente costuma carregar. No fim não era um acaso, no seu solo final de uma das ultimas músicas ele se interrompia cantando (sem nenhum contexto com a música, mas que dialogava bem com seu solo) “oi da licença meu senhor, oi da licença” e acho que se alguem ainda não tinha reparado nele (dificil) naquela hora notou. Eu, eu mesmo aqui, sentadinho na minha cama com um note no colo, posso dizer que mesmo sem isso já tava cativado, o curtir a si mesmo contagia e fica meio que como lição, transmite e passa uma vontade nos outros de fazer igual, de sorrir pro que o outro fez e pro que fez sozinho e só gostar do próprio momento.
Não lembro o nome do baterista, acho que era Rodrigo, ele foi apresentado no final do show, no fim das contas o comportamento se destacou mais que a música.
Ah a música era bem boa e fiz minha lição de casa enquanto escrevia agora de pegar o nome: Ed Neumeister Ensemble Brazil e Rodrigo Braz Santos o baterista.