Arte e violência — pensamentos soltos

Sarah Helena
Sep 7, 2018 · 3 min read

Existem diferentes formas de lidar com a expressão violenta na arte. Por um lado, existe a denúncia, o evitar que se olhe para o outro lado quando algo acontece, o colocar as pessoas para pensar. Existe espaço para o que é cru e brutal e na minha experiência, é a estética e a forma que abarcam essa necessidade e essa expressão, não o tema.

Com muito mais frequência, a violência como tema é mostrada pelo valor de choque. Ainda mais a violência contra minorias, que é explorada em um tipo de violence porn, de apreciação sádica de como temos o carimbo de menos merecedores de estar vivos, de como nosso destino é a punição. Um jogo de sombras onde tudo que importa é expor, desumanizar, garantir que nosso único lugar será o silêncio.

Assim as histórias nos expõem como carne no açougue. Sem direito de dignidade, de proteção da nossa dor. Vilanizados. Incapazes de expressar nossa própria voz, porque nossa única função estética é sofrer e morrer e ter nossa morte explorada por outros. “Eis o destino dos divergentes”, parecem gritar, cobrindo nosso rosto, expondo nossas feridas e ainda mais, dizendo que somos sexy quando feridos. Somos bonitos e dignos de ser mostrados quando estamos sendo violentados — nosso estado natural e livre não interessa a quem quer nos expor.

Não importa se o autor é parte dessa minoria ou de alguma minoria. Porque estamos falando da expressão de preconceitos estruturais, que são muito maiores que o indivíduo e que são repetidos por aqueles que também são vítimas. Até pela falta de referencial criativo. Quando você é sempre mostrado como vítima exposta, como saber que pode ser protagonista da história? Levou muito tempo para eu entender o que eu sentia quando via esse tipo de coisa, reconhecer que não era catarse, mas a mesma coisa que eu sentia quando me machucavam por ser o que eu sou.

Eu precisei experienciar outras vozes, eu precisei entender que havia espaço para o Outro e tudo o mais que já falei a respeito um bocado de vezes, para começar a dar nome para aquele algo errado que eu sentia. Mas um monte de gente mais sensível do que eu partiu por outras percepções e não essa, e eu não digo que a minha verdade seja única. O fato é: existe uma exposição da violência feita para chocar, e ela afeta as pessoas.

O violence porn funciona. As pessoas querem histórias tristes, querem essa sensação de chafurdar no “deserto do real” (adoram usar esse termo, inclusive). Mas o que o pornô é, seja ele qual for, é o falso, o simulacro. Não é a crueza de verdade, é a versão comprada pela parcela dominante.Violence porn precisa ser grotesco mas palatável para que o senhor branco hetero de meia idade não precise repensar nada. A vítima não pode ser tão vítima assim, a minoria não deve ter tanta voz assim que a gente veja aquela pessoa como humana. Não, é preciso garantir o papel de Outro, de estrangeiro. É preciso garantir que a Culpa sente no palco e ocupe o lugar de honra, que a violência seja vestida de preceito e fórmula moral, usada do mesmo jeito que é usada no cotidiano, fora do campo simbólico: como punição ao que fugir da norma.

Porque a arte como entendemos tem uma forte carga de intencionalidade. E quando a gente faz a violência, ainda mais a violência contra uma parcela socialmente frágil, ser o foco do que a gente produz a intenção é servir ao majoritário, ao que quer manter calado.

Não querem que a gente acredite que tem direito a nenhuma outra narrativa. Querem nos convencer de que a única narrativa que nos cabe é a morte, sangrenta e exposta e a culpa caindo sobre os ombros dos sobreviventes.