escrevi textos acadêmicos demais (por isso resolvi escrever algo diferente)
texto escrito no dia 6/7/17
A comida do bandejão da UFMG é realmente muito boa. Todos os dias — exceto fins de semana — saio de lá empanturrada e sigo meu caminho rolando a ladeira do tanto que eu comi. A capacidade do meu estômago costuma ser muito limitada, mas o cenário muda completamente quando abro minha mochila, tiro minha carteira e pego dentro dela a minha carteirinha de identificação estudantil cuja foto não me traz nenhum tipo de sensação não-ruim.
Hoje (lê-se ontem, já que estou escrevendo isso no comecinho da madrugada do dia seguinte), vivi uma experiência curiosa em uma das minhas típicas descidas diárias do bandejão.
Eu estava descendo a ladeira e ouvindo Noiserv (um artista português desses que coloca uma frase no título do álbum/das músicas e que recomendo pra caralho), com a banana da sobremesa do almoço no bolso (essa informação não tem qualquer relevância pro relato, mínima que seja) e implorando que o sol das 14h alcançasse o meu corpo, porque está demasiadamente frio e eu não aguento mais. Não havia muitas pessoas no meu campo de visão, já que é fim de semestre e a universidade está cada vez mais vazia.
Em um ponto do meu trajeto, tropecei em uma raiz gigante porque a calçada (aqui em beagá chamam de passeio) não é calçada, mas levantei e segui caminho como se nada tivesse acontecido. Ou teria seguido, se não tivessem interrompido minhas intenções com um toque no meu ombro.
Olhei para trás, assustada por reflexo. Foi quando meus olhos encontraram os olhos dele. Para fins de manter a integridade do dito cujo, neste relato o chamarei de Astolfo.
Astolfo era um homem baixo, com o cabelo curto e verde como grama curta e uma barba castanha tão grande quanto a do Karl Marx. Cabe citar que suas sobrancelhas estavam tingidas de vermelho — um detalhe atípico que não poderia ter deixado de me chamar a atenção. Ele estava vendendo palha italiana de oreo, e eu imediatamente entendi que ele teria me chamado com a intenção de vendê-las para mim.
Aguardei alguns segundos para ver se Astolfo falaria alguma coisa, mas ele não falou. Nesse momento, fiquei com uma vontade enorme de sair correndo dali: não porque estava com medo de Astolfo ou algo do gênero, mas porque tenho medo de interações sociais e não sabia o que fazer. Infelizmente, não saí:
— Oi — eu disse, com um sorriso sem graça no rosto, na tentativa de amenizar a situação estranha que havia se estabelecido.
— Olá — respondeu Astolfo, com a mesma não-expressão de antes.
Levantei uma das sobrancelhas, cada vez mais confusa. Meu coração estava batendo a mil e eu não sabia o porquê. Tudo o que sabia, naquele momento, é que eu tinha uma série de perguntas sobre os últimos segundos que eu queria que fossem respondidas. Por que Astolfo havia tocado o meu ombro? Por que ele não falava nada? Por que continuava me olhando, parado, como se estivesse esperando algo? Como a raiz daquela árvore poderia ser tão grande? Como eu planejava começar e terminar um trabalho de meses em três dias?
As dúvidas eram muitas, é claro. Por alguns segundos, fui totalmente consumida pelos meus pensamentos: em outras palavras, viajei completamente na maionese e esqueci que havia vida ao meu redor. Quando acordei, Astolfo não estava mais lá.
Achei estranho, é claro. Por mais que saiba que quando eu me distraio o negócio pode ser fatal, eu com certeza teria visto o rapaz, tão chamativo que era, sumir da minha vista. Por ora, minha cabeça cética apenas assumiu que o problema estava em mim.
Tentei voltar a caminhar, fingindo que nada havia acontecido, mas ouvi uma voz masculina vindo de trás de mim que dizia: “Laís, é chegada a hora”. Primeiramente, tentei imaginar que hora seria aquela. Em seguida, me dei conta de que sou completamente aleatória nessa universidade, não tenho amigos e alguém dificilmente saberia meu nome. Só depois de alguns segundos processando a informação foi que percebi o que deveria ter percebido muito antes…
Não havia ninguém.
Absolutamente ninguém.
Assustada, pensei em apertar o passo e continuar andando, mas minhas pernas se recusaram. Elas estavam paralisadas; literalmente não conseguiam se mexer. Por mais que mandasse os comandos pelo meu cérebro, era como um programa de computador que parou de responder. Minhas pernas eram como um Windows que havia dado tela azul.
Gritei alto, com todas as minhas forças, só para ver todo o mundo como eu conhecia desaparecer diante dos meus olhos e se transformar em branquitude infinita. Mas continuei gritando, porque não sabia o que fazer.
Foi então que Astolfo apareceu novamente — dessa vez, sem barba e vestido com roupas futurísticas. Parecia algo saído de um filme de ficção científica:
— Está começando — ele disse, tocando meu ombro novamente e restabelecendo minha capacidade de andar como num passe de mágica.
— O que está acontecendo? Eu morri? — perguntei, confusa.
— Ainda não, mas morrerá em breve se não nos apressarmos e fazermos algo a respeito — respondeu-me, e apertou um botão em seu traje esquisito, fazendo aparecer um holograma em tamanho real bem na minha frente. — Senhora, eu a encontrei, mas infelizmente não consegui fazê-lo a tempo. Reverti sua situação, mas temo que não terei energia suficiente para tirar-nos daqui. Por favor, mande reforços.
O holograma era de uma mulher alta e imponente, vestindo trajes da mesma natureza daqueles que Astolfo usava, mas com detalhes que faziam-na se destacar ainda mais. Ela claramente era uma figura importante.
— Astolfo, nós não podemos baixar nossa guarda dessa forma. Você tem certeza de que não irá conseguir? — perguntou o holograma, com tom de preocupação.
— Não, Senhora. Não vou — respondeu Astolfo, abaixando sua cabeça.
A mulher bufou:
— Está certo. Vou ver o que posso fazer e entrarei em contato em breve.
O que parecia ser uma ligação então se desfez, e o holograma sumiu sem ao menos falar tchau.
— Será que foi algo que colocaram no meu prato? — perguntei ao homem, levando a mão direita ao queixo, pensativa.
— Se suas pernas usassem Linux nada disso teria acontecido — Astolfo respondeu, com um misto de tristeza e raiva em seus olhos.
