O último fecha a porta

Foi alguém próximo que fez o aviso. Começa perigoso e se já não tinha muita pretenção no início, vá. Uma amiga senta no chão do quarto e fala de um cara durante três horas seguidas. Curvo os lábios porque acho a história toda muito engraçada. Se ele é de gêmeos ou áries, corra – recebo o conselho. Não sei muito bem o que isso quer dizer. E deixo pra lá, porque primeiro, corro de um jeito esquisito e segundo, bem, deixa pra lá.

Ninguém enfrenta a solidão de um jeito fácil. Ânimo inocente, as noites não são todas iguais. Percebo isso em algum ônibus com a cabeça encostada na janela. Acho que quando Day Light do Matt and Kim começa a tocar. Ou The World At Large do Modest Mouse. Alguns apenas existem, outros só choram, fazem piadas maldosas e culpam alguma figura de poder. E tem a parte dos que só desejam comprar um terno branco para se sentirem parte de algum episódio do Miami Vice.

Redescubro. Redescubro que o cinema sem ninguém pra dividir a pipoca não é assustador. Que posso ir até a minha livraria favorita e me estirar em algum canto com Yukio Mishima até ser expulsa por já ser tarde da noite. Vinte e duas horas. Um punhado de amigos, uma festa onde não conheço nenhuma música – percebo, a minha decadência dançando não é nada charmosa. De alguma forma, sinto que sou mais forte do que esperava ser. E deixo que a vida me surpreenda. Novidade. Apita o peito, sinto vontade de rir da minha cara. Não tenho paciência pra esperar. Embolo as palavras. Já mencionei que a minha decadência dançando não é nada charmosa? Riso nervoso, silêncio constrangedor. Evolui. Reforço a barreira de um sobrevivente por aqui. Muito esperta, penso. No fim das contas, não sei de nada. Percebe que é felicidade?

Freak out, far out, in out e veja bem. Nada é permanente. Por mais que pareça algum desses galpões de programas do History Channel onde as pessoas esquecem que guardaram coisas lá dentro e lembram muitas décadas depois. Não passa mais nenhum episódio de Doug. A Ana Maria ainda tá na televisão. O Bowie morreu. Mais pra frente, só as músicas permanecem as mesmas. Acho justo, em tempos de inconstância.

Concluo, confesso. Tenho medo de virar alguém descartável. Um peso de papel que ninguém precisa, graças ao uso de tecnologia. Busco refúgio em algum livro, um ombro amigo, na minha cama. Bandeira branca. Passa, lava a alma. Dali cinco minutos, não lembro dessa agonia. Tento não me agarrar mais a situações e consequências imaginárias. Eu penso demais, por mais prática que pareça, e isso puxa pra trás. Armadilha. É uma queda de braço preciosa que deixo por si só. Saio, volto. Afogo essa pressão com novidade. Eis a minha mente moldada por desenhos dos anos noventa, Coca-Cola e Banco Imobiliário da Estrela.

O receio dele voltar pro mesmo lugar de antes não se faz mais aqui. O calor infernal de outubro-novembro-dezembro vem me trazer meias-verdades. Acordo, repito o ritual matinal. Aguardo na contagem regressiva.

Estou sozinha outra vez.

Ilustração por Nina Cosford
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