O vale dos limites

Pensei em um título mais original, mas pela primeira vez em algum tempo ficou acordado que não precisa de floreios

Tem o limite do seu cheque especial. O limite pra definir a continuidade dos números reais na matemática. O do Rio Negro e Solimões. Limite de tempo, espaço, peso na mala de aeroporto. O de quanto se pode carregar no peito. Limite de amor, de força e velocidade. Não exatamente nessa ordem.

As horas não importam. Sei que estou atrasada. Impossível esquecer a avalanche de coisas do trabalho esperando. Planilhas, tarefas urgentes que não valem a vida de alguém. Meu inferno pessoal e temporário. Sei direitinho o percurso do dia. Mas na sexta-feira me permiti desabar na cama chorando por uma hora e meia. Mesmo que isso fosse me atrasar. Desonra, embaraço, confusão. It hurts. Solucei aos prantos, dura como uma rocha clástica. O que se espera dessa vida faminta?

Faz dias que eu não durmo direito. Os golpes do tempo são cada vez mais rápidos. Pisco e são seis da manhã. A água cai quente pelas costas e sete, oito, nove, nove e meia, o ônibus sempre demora. O dia lotado nunca foi problema. Quer dizer, eu sei que dou conta. Ou dava. Marcar aulas de alemão às terças e quintas, na hora do almoço, não foi a ideia mais inteligente que já tive. Com certeza não, se quer saber.

Eu tô exausta. E não comento com muita gente porque foi escolha minha passar por tudo isso. A cara de zumbi também entrega. Os sábados são dedicados a passar horas entregando encomendas da minha loja. Deixei o domingo pra descansar, mas sempre tenho lição do alemão, meu quarto bagunçado. Daí vem a semana. E o trabalho, a terapia, ballet, academia. Uma lista idiota, porque como já falei, escolhas minhas. Soa até um pouco babaca. Pobre garota privilegiada ocupada, mais uma no mundo!

O papel de vítima nunca me caiu bem. Tem essa técnica, quando acho que preciso de arrego. Pego a bandeira branca pra servir de lençol e me escondo por alguns segundos, mesmo que não cubra metade da minha cabeça. Logo ameniza e retomo o ritmo insano. Quero ter boas novidades o tempo todo. Otimismo vicia.

Os olhos vermelhos e inchados dentro de um táxi que não posso pagar, a caminho do trabalho. Imagino uma cena de filme experimental com filtro avermelhado. Dois quadros mostrariam os resultados. Em um, se eu tivesse finalizado as minhas responsabilidades com maestria diária; em outro, fracasso. Aquela coisa clichê de expectativa e realidade. Maior bobagem, porque nosso maior erro é deixar que as verdades se tornem elefantes. Admito que construí um muro bem alto entre o meu eu debochado na frente dos outros e o olhar preocupado perdido que insiste em zanzar pelos vagões. Meu medo é mudo e silencia qualquer início de conversa. Nessa altura, lembrei de alguém me dizendo que eu deveria ouvir mais aos outros, que não era a toa que nós seres humanos tínhamos duas orelhas e uma boca. Caralho, que bosta.

Gosto da sensação de ver a Zona Norte virar rodovia e as árvores ficarem pra trás, o coração desacelera aos pouquinhos. Reparo que o taxista me olha preocupado pelo espelho retrovisor. Ele com certeza é um homem de fé e vai querer puxar assunto. Sei disso porque tem um adesivo avisando que Deus é fiel no para-brisa. Um sinal de que eu deveria acreditar mais. Talvez aprender a rezar ou a verdadeira posição dos astros. Essa culpa passa rapidinho. De tão ocupada, nos últimos tempos, ando com o coração nos pés amaciando os passos a todo custo. Deve bastar.

Sentir qualquer coisa demanda tempo, então finjo que não o faço. Sinto saudade dos meus amigos que estão longe e dos que não foram a lugar algum. Sei que a maioria tá a uma mensagem de distância. É preciso foco pra não deixar a caixa de entrada do Facebook acumular. Imediatamente, me sinto egoísta e uma péssima amiga, mas também não tenho tempo pra sentir culpa. É preciso cometer primeiro o erro e depois deixar que se cometa o desvio, penar que se amargure o desencontro. Acontece.

A crise de ansiedade na sexta-feira foi um freio. Pensei que fosse morrer e gritei descontrolada com o barulho das notificações do celular. Pedi pra me esquecerem por um minuto. Foda-se o pauteiro. Foda-se a sua encomenda. É só roupa. Foda-se! Assumo que tive um surto de pessoa metódica que odeia falhar e precisei desacelerar na marra pra perceber que tá tudo bem se eu não conseguir dar conta. Deixa o ônibus passar, porque logo vem outro mais vazio e eu realmente não me importo mais com o conceito de atraso. Os prazos e dias vão virar lembranças no amanhã que vem com outras prioridades. Aquele documento que já tá oficializado por si só, mas que fica mais bonito com os cem reais que deixo cada vez que vou ao cartório. No fim, tudo caminha pra normalidade.

Já com o peito mais vazio, legalizo comigo mesma. Decido parar de me cobrar, por mais que saiba o quão temporária essa promessa é. Tá corrido, mas não depende só de mim. Quero rir sem culpa porque o resultado disso tudo há de ser bonito. Dar o meu melhor não precisa ser sacrifício e carnificina. De todo mal, o que mais mata é o desalinho, é o “me esqueci”, é a conversa que passou na tua frente mas ninguém ouviu.

Degrau por degrau. A previsão do domingo é chá de camomila com algum livro que encostei há meses. Descanso. Estar dentro de tal fenômeno exige uma espécie de ritual com os olhos, uma forma diferente de piscar, de olhar, mais atenciosa, mais lenta. É perigoso. Quem na marquise de Marise já esteve ao menos uma vez, não quer mais sair de lá.

Foram dias difíceis, mas isso ainda é argumento.

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