Outubro rosa pra quem?

O câncer de mama como estratégia de marketing

Por aqui existe o dia de comprar sutiã. A data acontece duas ou três vezes ao ano. É preciso calçar tênis confortáveis e deixar o emocional preparado. Já foi mais difícil. Baita tarefa encontrar lojas que vendam sutiãs para mulheres pós-mastectomia. Quando a gente encontra, sempre são modelos feios, sem sal, largos ou apertados demais. “Só porque eu tenho uma teta a menos eles pensam que morri?”, foi o que vó Augusta disse na nossa primeira caça.

Você provavelmente conhece uma mulher que tem ou teve câncer de mama. A sua mãe, tia, vó, a mãe do seu melhor amigo ou aquela vizinha querida. O processo inteiro é bastante doloroso e complicado, pra não falar desgastante. Cada vitória é comemorada com otimismo e os momentos ruins serão… muito ruins.

Como filha e neta de mulheres que lutaram tão bravamente contra essa doença, a cada outubro, algo tem me incomodado bastante. A loja onde entramos para comprar os primeiros sutiãs com compartimento de prótese delas, por exemplo, colocou um banner curioso na fachada. Tem uma moça jovem, corpo padrão, cabelos longos, feliz e com um sutiã rosa muito bonito. E lógico, a frase “juntos no outubro rosa”. Entramos esperando que a peça do anúncio fosse para mulheres nessas condições. Ironia ou não, só tinha um modelo tamanho 42 horrendo e bege, sem vida.

Não vejo mulheres carecas e passando por tratamento em anúncios sobre o assunto com frequência. Lembro da vez que perguntei pra minha mãe o que ela sentia ao ver modelos nesses anúncios. “Saudade do meu cabelo, de ser saudável assim”. Entramos então na representatividade. No entanto, o buraco é bem mais embaixo. Além desse ponto importantíssimo, marcas estão se aproveitando da data pra promover a cor e não a causa. Rosa é ótimo! Rosa pastel é tendência. Joga ali a modelo, um terninho lindo e escreve na legenda da campanha que tá todo mundo apoiando. Aliás, apoiando o que? Nem diz!

Precisamos de informação e não fotos bonitas com mulheres em um padrão absurdo. Marcas, divulguem o autoexame. Façam fotos de mulheres que passam ou já passaram pelo câncer de mama. Escutem, disponibilizem espaço. Abracem a causa como vocês tanto querem, mas do jeito certo. Não é sobre a cor rosa e sim o que ela representa.

Aqui uma das fotos da campanha incrível que a Rosie Huntington-Whiteley fez em dois mil e quinze com mulheres que realmente passaram/passavam pela doença. <3
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