Promessa de escoteiro
Porque eu até daria tchau se realmente soubesse acenar, então fica pra próxima

A minha vó sempre diz que não sabe de muita coisa. Desfaz de si mesma porque só estudou até o quarto ano do fundamental. Geralmente solta o discurso antes de dar algum conselho ou bronca na gente. Sai como quem deita a cabeça cheia de culpa no travesseiro, todas as noites, por saber demais e não ter um diploma que comprove as experiências adquiridas desde a pousada onde nasceu, no Ceará. Foi ela quem me ensinou que prevenir-se demais é negligenciar o estado natural de imprevisibilidade da vida. Solta dessas com a mesma intensidade que compartilha o requeijão, o pão francês e as duas fatias de presunto no café.
A semana passada foi esquisita. Saí de casa com a cara que me entregaram quando nasci, a mesma que eu entrego a rua todos os dias pela manhã e que compartilha da poeira dos carros da Faria Lima. Eu vi gente forte chorar e ruir rapidinho. Ia ouvindo as minhas músicas com um peso enorme. Chegava no trabalho e dava de cara com um passado inalterável, um monte de coisas que a gente varre pra debaixo da cadeira, é um saco. Acho que era terça-feira quando a coisa ficou feia e precisei pedir pro taxista dar mais uma volta no quarteirão, porque o cheiro do carro dele era igualzinho ao da minha mãe. Aquilo ali me acalmou. Fechei os olhos e tentei imaginar as nossas viagens até a praia e a sensação de pertencer, mesmo custando seis reais a mais por causa da bandeira dois.
Você só aparece quando eu bebo e a verdade é que não tenho virado nem cerveja. Justo eu que já me prostituí por qualquer sorriso seu. É o tempo, a agenda cheia. Preciso lembrar sempre que ó, nem tudo tá perdido quando não se tem um par. Olho pros rostos diários com uma ternura que só senti em momentos pontuais, como vésperas de feriados prolongados e festas de fim de ano. Quatro anos é muito tempo pra gente ansiosa feito eu. Quero tanto chorar, mas sei que a vida logo clareia o caminho de quem cedo se entrega. Passa logo. Geralmente, na Ministro Jesuíno, é que se encontra um pouco a mais de amor, um pouco a mais de comida, de vida, de gente feliz com vista pro concreto.
Admito: sexta-feira passada prometi que tudo ficaria bem. É domingo e me acho ingênua. Tanta coisa aconteceu depois daquele dia. Saí pra dançar e cada movimento meu foi bastante vergonhoso. Uma sensação de exploração, de aventura, de medo, sei lá, sem sexo também. Salvas as exceções, é como agir por impulso de sobrevivência. É como andar de moto, sei lá, não tenho metáforas muito boas, mas eu gostei muito de andar de moto. Então é como se no fim, essa fase da minha vida fosse como a barba é pros caras. Eles esperam crescer, aguardam, e simplesmente, um dia se acorda e ela nasceu, e ali está, ali se cria.
O lado de dentro é o que dói mais e não mostro pra ninguém. Eu já dormi desejando ganhar na loteria ou receber mensagem de gente que decorei todas as pintas do rosto. Hoje eu vou dormir desejando acordar com a coragem que sinto agora. Tô encostada na parede do corredor bem quietinha olhando a vó Augusta dormir. Teu maior diploma é dar a cara a tapa e ainda assim parecer uma estrela de cinema nordestina. Sigo com a bênção da minha cangaceira divina porque tudo há de correr bem. Sei que será preciso tomar cuidado com a segunda-feira, porque o azedume é quando o dia bate amargo, e a gente perde a vontade de viver.
