Recomeço, ato ll
Li um texto que escrevi há dez meses e descobri que ainda existem muitos recomeços por vir
Comecei a trabalhar aos quinze anos. O plano de assinatura mensal da Catho obviamente pago pela minha mãe — ela que não aprovou a ideia, mas confiou em mim. Balela. Passou semanas com os olhos baixos, massageando as têmporas, como se assistir àquela cena fosse me fazer mudar de ideia. A chantagem emocional girava em torno do desempenho escolar descer ladeira abaixo. Bom, você já deve imaginar o que aconteceu sem nem precisar ler o fim.
A loja vendia florais de Bach e coisas orgânicas com preço acima do necessário. Um trampo careta que fazia o meu sábado render pela metade. Ainda existe. De frente pra uma igreja na Água Fria. Magna Seiva, acho que era esse o nome. Fui feliz da vida pra entrevista, acompanhada da minha vó Augusta. Era uma das condições, pois não sabiam muito bem quem era essa tal de Odete, mulher do Luciano. Lembro direitinho do sorriso orgulhoso e culpado dela, levando a neta mais velha pra tentar uma vaga como vendedora. Ia me orientando devagarzinho, pela Alfredo Pujol. Importante ser clara, não baixar os olhos. O queixo sempre em linha reta e o coração calmo, como se estivesse sob efeito daquele suco de maracujá da feira, vê?
Era uma rotina gostosa, apesar do cansaço e jogo de cintura pra dar conta. Tirava proveito do meu desconto de funcionária em balas de alga e uma tortinha horrível de ameixa. Trinta por cento de desconto. Comia tudo nos intervalos, enquanto lagartixava do outro lado da calçada. A hora do café da tarde é sempre quando o Sol bate numa temperatura perfeita. Estirada no meio-fio ficava, provavelmente acompanhada do meu Histórias Escritas por Espelhos, que li de forma clichê dez vezes naquele ano.
Deu tempo de cultivar clientes favoritos. Tinha uma senhora hipertensa que achava o meu sorriso doce. Brincava que não dava pra ficar muito tempo por perto, já que né, o médico cortou o açúcar. Haha. Diferente de mim, preferia chocolate diet com banana passa. Havia um carinha bonitinho que acompanhava a mãe de duas em duas semanas pra buscar florais que prometiam deixá-lo com mais foco no vestibular. Confesso que comprei dois desse.
Durei dois meses nesse emprego e o dia em que me demiti foi horrível. Decidi pedir as contas depois de uma nota baixa em química. Baita culpa por ter aceitado a vaga na escola de uma amiga da minha tia pra cuidar da computação e biblioteca. Meu segundo emprego. Menos horas de trabalho, mais tempo pra estudar. Nunca mais vi Dona Odete e a senhora hipertensa. É verdade que ainda passo na frente da Magna Seiva. Sempre de táxi, ou carro. A minha vó solta toda vez “lembra daqui?” com uma ternura irônica.
Senti o peito pesado semana retrasada. Não foram dois meses, eu sei. Quatro anos passaram por aqui. Ia reparando na minha mesa, nos rostos diários e a comida da Berrini. Dias oscilando entre um choro de agradecimento e alívio. Abraços em pessoas que nunca mais verei. Elétrica porque talvez tivesse a cabeça muito inquieta no futuro. Sinto que o tempo não distancia ou modifica o que é inerente a uma rotina tão transformadora. Esse é o teu momento, Lou. Se permite. E assim foi. E assim eu vou.
Há muito ruído na CPTM e qualquer menina de olhar assustado já aprende que tudo nessa vida tem um pouco de gosto de sabão ou cheiro de gás natural. Não se ensina entretanto, que é possível fugir. Que os mares são em número de sete e que os prédios de Berlim vendem luz e cigarros na cor cinza — não farei isso com o meu pulmão. Mesmo assim brincamos muito de adivinhar qualquer coisa bonita que eu diria a qualquer pessoa em outra língua gratuitamente, e prometemos já com a cabeça dentro d’água, fazer o mundo me escutar melhor.
Tenho medo que a minha falta não seja sentida. Que seja fácil viver sem mim.
Bobagem, né?
Mas eu sinto.
Naquele lugar conheci pessoas com as quais me senti confortável colocando uma palavra atrás da outra numa frase completa. Apresentei um lado debochado que só existia pra duas ou três pessoas de convívio sólido, sabe? Eu não me acho engraçada, mas eu via a minha amiga rir de canto de boca, mesmo que sempre soltasse um palavrão feio depois. Cada esquina da Vila Olímpia guarda um legado. De dois jovens apaixonados até um grupo de amigos conversando sobre peido e as injustiças do proletariado.
Penso vago em frutas da época, ventiladores de teto, sílabas tônicas e enciclopédias de botânica. Uma piada preguiçosa ou uma canção que me lembre do conturbado ano de dois mil e quinze. Perdi mais uma boa ideia na esquina de casa, acho que fugiu junto com a fumaça daquele incêndio e as risadas que compartilhávamos a cada almoço. Dei um jeito de guardar essa última. Há de ser útil nesse caminho solitário que tô trilhando.
Esta cidade é minha antologia de amores. Por todos os lados, um tiro no peito, cidade insolente, amar ou morrer.

