Recomeço

Ilustração: Nina Cosford

Choveu no domingo. Daquelas chuvas certinhas que seguem a pirâmide invertida das chuvas certinhas. Sabe como é. O cheiro de terra e asfalto primeiro. A brisa leve. Os pingos separados. Pausa. Ganha força. Cai com tudo. Despenca. Vira garoa fina. Vai embora.

Comprei as galochas dos meus sonhos na última viagem que fiz e, desde então, torço pra que chova muito todos os dias. Se as preces forem atendidas, sei que posso fazer o caminho do trabalho pulando em poças d’Água. Coisa que parece idiota aos olhos dos moços carrancudos da Vila Olímpia, mas enchem o meu peito. Não choveu hoje.

Algumas pessoas dizem que eu sou muito boa com palavras. Talvez seja. É o único jeito de trabalhar qualquer tormento aqui dentro. Dessa vez tá diferente. Eu não sinto nada. Tô ansiosa pra saber o que vem por aí. Não tenho muita coisa planejada, mas sei certinho onde quero chegar. Começa a tocar o Green Album e fico animada. Daí vem alguma música do The Cure e o buraco no meu estômago volta a doer.

Dá medo, sim. Vazio. É, dá vazio ver meus discos de indie deprê sem os de pop punk, ao lado. Ainda não consegui decifrar o que sinto quando acordo, religiosamente, todos os dias, às seis da manhã e mecanicamente abraço o nada. Sonho todas as noites com ele dizendo que nunca me amou e que só tinha medo de ficar sozinho, no fim das contas. Que já fui substituída. Levanto num susto e fico me perguntando se deixou de ser há muito tempo e só eu não vi, tava ocupada olhando pra tanta coisa, cultivei uma espécie de resistência contra isso. E aí ficou pesado. Não sabia mais quem era. Nós ainda somos amigos? Qual o meu lugar na sua vida, agora? Me vejo como uma estranha, uma mistura bizarra de momentos. Pra onde foi tudo aquilo? Por que dói se não fazia mais bem?

Levantei cedo, corri cinco voltas no quarteirão. Pensei que fosse morrer. Tinha um cachorro na calçada, vendia-se uma casa. Rolou um acesso de riso sozinha. Arfei pra caramba. Os caras do quartel passaram em disparada por mim e deram apoio moral. Não sei qual é o sentido disso, mas acho que vai fazer bem. Li em algum lugar que correr aumenta a memória e deixa tudo mais produtivo. Essa pessoa com certeza deve saber de algo. Por mais que as minhas pernas sejam tortas demais e eu corra de um jeito muito esquisito, amanhã tô lá de novo.

Foi difícil perceber que as coisas não funcionavam mais daquele jeito. Não cabia mais aqui. Parecia um jogo de aviãozinho daquelas mães duras na queda que já encheram a pança do filho de tanto comer e o bebê desvia a cara pra não receber mais aquela colher chata da porra. Foi a melhor decisão. Não a torna mais fácil, verdade. Pelo menos pra mim. Aprender que quando não dá mais, a gente engole o choro e tenta abrir o peito pro novo, com coragem. E aceita que cada um lida com isso do jeito que achar melhor. Respiro e reparo num suspiro longo, nunca gostei de confrontos.

A parte boa desse ciclo esquisito é descobrir quanta gente legal quer o meu bem. Tô recebendo uma onda de carinho muito boa. O que é engraçado porque sempre fui meio cega pela verdade de que estava sozinha, no fim das contas. Algumas pessoas nem sabem o bem danado que fazem só de existirem. Obrigada, gente. Minha família, Pati, Nils, Mari, Marina, Tati, Aninha, Ju, Bruno, Gi, Guilherme, Thais, Jessy, Rafa, Eliz, Mi, Cash, Renan, Bia, Larissa. Obrigada mesmo.

E por fim. É estranho ficar sozinha. Não é chato como pensei que seria. Preciso ficar quietinha, olhar com mais clareza. Ficar feliz por falar sem ninguém interromper, mas ao mesmo tempo permitir que a tristeza apareça por não ter com quem cantar músicas idiotas e aprender que nunca foi minha culpa.

Algumas pessoas reapareceram do nada, mas não posso pensar nisso agora. Quero seguir sem dependência de segundos. Eu tô com uma barreira e não posso somar, desculpa. Não consigo entender o medo que todo mundo tem de ficar só. Dá tempo ao tempo.

É o meu jeito de lidar com isso tudo, aprendi. Tapar o vazio rápido demais é traiçoeiro porque o tombo é maior e essa não é a prioridade. Pra que a pressa de mobiliar a casa inteira? Autoconhecimento porque eu quero me amar. Curar qualquer insegurança ou dúvida que adquiri ao longo desses anos. Lembrar de algo bom e sorrir.

Ficam as lembranças e coisas boas. Gratidão por muita coisa, umas cicatrizes por outras. Não ter uma mão pra segurar é complicado, mas percebi que alguns vestidos meus têm bolsos. O que for de mágoa, a gente joga fora porque causa câncer. Seguimos.

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