hoje não foi um dia fácil.

passei o dia em um hospital, ao lado de uma pessoa com quem incontáveis vezes estendi o colchão no quintal para brincar de lutinha, me fiz goleira em um gol que tinha a extensão do portão de casa que dava pra rua, juntei moeda para jogar street fighter no fliperama da padaria e disputei panela de brigadeiro. ao lado de uma pessoa que há quatro dias tentou encerrar a própria vida.

naquele quarto de um hospital público: um ventilador quebrado, um arcondicionado quebrado, três camas espremidas que tem entre si apenas o espaço das cadeiras onde as acompanhantes dormem – cadeiras estas trazidas por elas –, toalhas penduradas nas janelas para barrar o sol que incide diretamente sobre os corpos, uma privada entupida, uma presença médica que se reduz a entrega periódica de alimentos e remédios.

três camas. três homens. 
ao lado de cada cama e de cada homem, uma mulher.

eram aquelas mulheres, e não quaisquer representantes do estado, que lavavam os corpos daqueles homens com toalhas molhadas, levavam comida até as suas bocas e lhes ofereciam escuta.

vejo aquelas mãos femininas trabalharem incansavelmente pela manutenção da vida, e ressoam em mim as palavras de débora, que ouvi sexta-feira no ciclo de debates “a lente do comum: resistir é construir alternativas”:
“quem foram as pessoas importantes para que você estivesse viva hoje?” 
“e se isso fosse uma estratégia?” 
“e se a gente chamasse essa estratégia de política?” 
“e se essa política governasse?”

hoje não foi um dia fácil, também, porque eu vi um homem que tem por projeto a aniquilação de modos de vida como os meus e de pessoas que amo se eleger presidente do brasil.

eu estava ali, travando uma batalha da vida contra a morte que, felizmente, não me deixou esquecer que essa guerra que declararam contra nós é também uma guerra de forças de morte contra forças de vida.. 
e que a produção da vida é o nosso terreno.

que aprendamos com as mulheres, essas que sempre cuidaram do fazer nascer e vicejar, que há tanta potência em um quintal e em uma cozinha quanto em um palanque, e que tomemos para nós a urgente tarefa política de nos mantermos vivas e sãs.

se o projeto deles é a nossa aniquilação, daremos a única resposta possível: permaneceremos vivas, disseminando tecnologias de produção de uma vida vivível.

por uma política da vida, no feminino.

seguimos.