Astronauta


Guerreiro místico, viaja entre suas histórias fantásticas sobre tigres e a criação do universo. Náufrago dos seus próprios oceanos, luta com seus moinhos de vento inventando seu tempo. Esse tempo maior que o tempo. Maior que a história e as limitações gramaticais, pretérito perfeito e imperfeito no presente do subjuntivo. Arrastando-se por vielas escuras que começam hoje e terminam amanhã, mas não passam de uma lembrança distante de um passado que ainda virá.

Inventor da pré-pré-história e da pangeia e do big bang, assiste do alto de sua plenitude a formação dos nós e de nós, viu o nascimento dos deuses e das musas e da dança e das dunas. Passava os dias descobrindo estrelas, criando planetas, percorrendo galáxias. Minerador de contos, com suas pedras e suas armas, guardião de segredos que mortal nenhum conseguiria carregar. Índio, precursor de todos os povos, amante cruel, pesado em sua ausência, presente em todos os átomos.

Não é imortal, mas quem o quereria ser? Sofre com suas perdas, sangra. Um sangue denso, quente, de um vermelho tão escuro, manchando o caminho com seu perfume, um cheiro calmo que contrasta com sua alma tempestuosa. Palhaço, poeta, cantor de festim. Pulando entre teorias numéricas e planos de expansão. Ultrapassando o próprio tempo numa corrida desesperada para chegar ao presente. Vivendo o antes, o agora e o depois num sonho alucinógeno, sempre um passo à frente de quem quer que tente alcançá-lo.



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