Domingo em preto e branco


Naquela noite seus olhos estavam de um escuro inexorável e vigiavam os meus sem perder nenhum segundo. Grandes, castanhos, me culpando por perder o dia todo. Analisando cada detalhe do meu rosto, descobrindo qualquer emoção que eu tentasse esconder, apreendendo cada sinal inconsciente que meus olhos mandavam. Gosto de me perder nos seus olhos. E gosto do desenho da sua boca, e da pressão que ela faz na minha pele, no meu corpo, quando me encontra assim de jeito, sem jeito, quando me beija com pressa. Seu rosto assim sério, atemporal, como um clássico do Kerouac, jovem poeta da geração beat nos anos 50, músico punk revolucionário na década de 70, vejo o quarto em preto e branco, vejo você em preto e branco. A pele branca e os olhos pretos. E as olheiras. Característica clássica de nós. Insones. Espero você acender o cigarro, recostado nos travesseiros, como num filme ou numa foto da Rolling Stone, censurado, o peito branco e os braços cobertos de rabiscos pretos, e olhos inexpressivos. E a boca. Talvez a minha parte preferida. Porque quando sorri, seu rosto muda e é tudo trabalho da boca. Quando sorri vira criança, menino, moleque brincando de ser grande, mas quando para volta a ser um personagem de filme francês, nu em preto e branco, coberto por uma névoa de mistério e gozo e grito e berro e medo. Gosto do que vejo e por isso continuo olhando. A expressão de dor quando não consigo me controlar e te mordo. Mordo pra arrancar pedaço porque quero você inteiro. Contraditório, sem nenhum respeito pelas tradições, primeiro o sexo depois o cigarro, eu poderia me acostumar com isso. Me oferece um chocolate enquanto me coloca pra fora. Inexorável, não me diz seu nome. E eu te vejo em preto e branco.


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