Amor em tempos de Tinder

- Ana, você se lembra daquele friozinho na barriga de encontrar alguém ali, do nada, no meio de uma festa ou de um restaurante, sei lá, e a nuca arrepiar?

- Quê? — afastando do tablet seus enormes olhos cinza, ela me escaneou — assim mesmo, como quem passa os olhos por um artigo qualquer na web, avaliando se vale ou não a pena perder cinco (ou talvez dez) minutos ali, naquele amontoado de palavras, e deu de ombros, voltando ao seu pequeno mundo online. Acho que não valia.

- Aquela coisa, Ana. Você se lembra… — cansada, pousei no chão o pé da cadeira que, há segundos atrás, fazia de gangorra. Bufei. — Tá, esquece a introdução. — puxando alguns fios esfarrapados que saltavam do jeans, disse: — Conheci alguém.

- Miga, por que não falou antes? — de súbito, ela deixou de lado a primeira, segunda e terceira tela que a haviam engolido e se voltou para mim. — Tinder ou Happn?

- Er… na verdade, nenhum dos dois. — cocei a testa, meio aturdida com aquele ânimo saído das profundezas. Engraçado como socializar de verdade, sem alguma realidade virtual no meio da coisa toda, pode parecer coisa de outro mundo de vez em quando.

- Tá usando HER? — já se empoleirando na cama, ela quase me lançou para fora, tamanha a empolgação.

- Ana, foi na vida real. — confessei, suando em bicas, quase tanto quanto quando contei a mamãe que gostava um pouco mais do que ~deveria~ de meninas.

- Vida… real? — ela balbuciou, aturdida. — Mas… mas… Pera, como é? — engulo em seco. Como é que a gente explica isso? Você sabe como é, hoje em dia é tão raro parar, conversar, falar sobre a vida, sobre paçoca, sobre o tempo com algum outro ser humano perambulando rua afora que explicar como é que vocês se toparam, assim, sem mais nem menos, e rolou, sei lá, química, é mais trágico que tentar me explicar a utilidade da fórmula de Bhaskara. Mas, munida de toda a coragem do mundo, fui em frente.

- É. Sabe, tipo agora. Nós duas aqui, uma perto da outra. Vida. — fiz um gesto abstrato com as mãos. Seus olhos, quase sem vida, piscaram inutilmente, sua cabeça pendendo para o lado.

- Tá, mas como? — suspirei.

- Ana, você se lembra dos tempos em que andava na rua olhando para ela?

- Rua?

- Ana, quando a gente passeava por aí, sem Uber, sem 99táxis, só saia de casa a pé mesmo, e via as árvores, gente, pássaros e aquelas vizinhas chatas também… Ana?

- Não.

- Como não? A gente descia essa rua, ia praquela sorveteria perto da escola da Joana, pedia para provar tudo… — dava para ver que eu a estava perdendo. Enchi o peito de ar, pensando em invocar a artilharia pesada. Segurei sua mão, a puxei para perto e olhei bem no fundo dos seus olhos. Aqueles olhares que chegam à alma, sabe? — Ana, eu me apaixonei.

- Apaixo…

- Me apaixonei, Ana. Você sabe, amor.

- Am…

- Aquela coisa que faz a gente de trouxa, que bambeia as pernas, faz ofegar a respiração, muda a cor das bochechas e coloca brilho nos olhos, aquela coisa que faz calor mesmo no inverno do Sul. — as palavras iam tropeçando uma a uma, escorregando como se, de repente, se enfileirassem na garganta e descessem uma após a outra no escorrega interno que se abrigava em meio aos meus lábios.

- Ainda não…

- Sentimentos. — vociferei, explodindo de repente. — Qualquer coisa que faz de você uma pessoa melhor ou pior ou que mexa com você. Que cause reações. — em vias de me ajoelhar sobre os lençóis, procurei por entendimento em seu olhar. — Alguma coisa? — já pensando em sacudí-la, a mente vazia de sinônimos.

- Oi?

- Ah, esquece. — revirando os olhos, me dei por vencida. — Foi match. — e aí, com que se um estalo tivesse assaltado seu cérebro, fez-se luz.

- Match! Eu tô tão feliz por você!!!! — disse, me abrigando em seus braços.

É, esse é o preço que se paga por se aventurar no mundo off-line.