Ela tinha um futuro promissor (Tinha. Até decidir ser babá).

Lola Cirino
Aug 22, 2017 · 4 min read

Antes de embarcar nessa leitura, quero que pense bem (medite mesmo) sobre uma coisa: como você cresce?

Oi, tudo bem? Meu nome é Lola, tenho 22 anos de idade, sou formada em jornalismo e tenho um livro publicado. E, não que isso faça diferença para você, mas, recentemente, deixei o Brasil para fazer minha primeira viagem internacional e, também, meu primeiro intercâmbio. Estou vivendo em Shanghai, na China, já há um mês e algumas semanas. Ah, e alguns detalhes importantes: eu recebo menos que R$ 500,00 por mês, trabalho 30 horas semanais e, antes que me esqueça, sou uma babá.

Se você se remexeu na cadeira, soltou um “nossa, a situação tá tensa mesmo!”, está cursando jornalismo e sentiu um frio na espinha, pensando que será o próximo a se desviar da carreira para se tornar uma simples babá ou teve uma reação similar às previamente mencionadas, parabéns: você acaba de encontrar um texto feito especialmente para você! Vem cá, dá a mão pra tia e vamos ter A conversa.

Vamos começar com algumas afirmativas: a) eu sou uma jornalista; b) eu sou uma babá; c) eu sou uma pessoa extremamente realizada com minha vida profissional.

Você pode torcer o nariz e pensar que é mentira. Você pode, também, pensar que é um trabalho escravo, que é um salário deplorável para alguém graduado, que é um tiro na esperança daqueles que estudam e buscam por salários e vidas melhores. Ah, e, claro, pode dizer que, com isso estou jogando todo o crescimento proporcionado pela faculdade e meu diploma no lixo.

E é aí que entra a minha pergunta: como você cresce?

Para não fazer disso um daqueles textos cretinos em que você acaba cheio de perguntas e nenhuma resposta, vou responder isso para você: eu cresço vivendo.

Eu cresço saindo de casa (uma bem pequena, lá em Belo Horizonte), pegando um ônibus, um Uber, um, dois, três aviões, um táxi e uma dose de fôlego antes de entrar na minha nova casa. Minha por três meses.

Eu cresço deixando uma família, amigos (que, claro, são também minha família), um emprego, o conforto de casa e de tudo o que sempre conheci para trocar por um salário baixo e um buraco negro que pode, ou não, ser bom para mim.

Eu cresço tendo que me virar com pouco, bem pouco; cresço tendo responsabilidades que vão além de qualquer uma já executada como jornalista; cresço tendo que conviver com pessoas que decidiram aceitar alguém de quem não sabem praticamente nada e com quem decidiram abrir a vida, mostrar as rachaduras por trás das grandes mansões, o que a gente finge que conhece, mas desconhece, e não é possível aprender ou apreender por meio de livros, de fotos em redes sociais ou através do olhar dos outros. É, é uma coisa que você precisa ver por si mesmo.

Eu cresço tendo que deixar um mundo onde eu escrevia e me comunicava como uma espécie de autoridade para outro em que não me encaixo nem como uma criança, que consegue soletrar, falar e se expressar. Afinal, é impossível falar uma língua que a gente não conhece, não é? E, você sabe, quando você não pode falar, você escuta.

Eu cresço vendo minha cabeça, minha rotina, minha casa, minha vida… tudo mudar. E continua mudando, todos os dias. Seja aprendendo a falar uma frase, entendendo que o metrô funciona assim, não assado, compreendendo uma nova cultura, percebendo as pessoas que fazem parte do nosso mundo, mas que estão tão distantes que a gente não vê.

Eu cresço desmistificando coisas, cresço quando entendo que a visão continental não é o mundo todo. O mundo, falando nele, é tão grande!

Vê? São essas coisas que a gente percebe quando deixa de acreditar que os nossos conceitos de sucesso profissional, bom emprego, bom salário e bons benefícios significam. Porque, eu garanto, eu tenho tudo isso bem aqui.

O que eu quero com tudo isso? Dizer que não existe: a) emprego bom e ruim; e b) desperdiçar talento/graduação/o diabo a quatro. Advogado pode ser cozinheiro, cozinheiro pode ser engenheiro, engenheiro pode ser publicitário, publicitário pode ser goleiro, goleiro pode ser… Bem, você me entendeu.

Não existem regras, não deveria existir esse desmerecimento de profissões, não existe x é melhor do que y e, cara, sinceramente, o quanto antes você perceber isso, mais rápido você vai perceber que a vida é simples: existe o que você quer e quando você vai começar a trabalhar para isso.

Entenda, não sou uma profissional da vida nem nada do tipo, mas se eu, do alto dos meus 22 anos aprendi uma coisa com a vida, foi a seguinte: sucesso é a capacidade de chegar ao fim do dia podendo responder à seguinte questão: você foi honesto consigo mesmo hoje?

Então, como você quer crescer?

)

Lola Cirino

Um monte de pessoas em uma só.

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