A pilha de sentimentos acumulados e o desafio de organizá-la

Não é raro ver gente se desdobrando para levar uma vida sem arranhões. Talvez seja o desejo de todos, mesmo daqueles que descobriram a duras penas como isso é impossível. Tentando alcançar esse objetivo, buscamos atender todas as demandas dos que nos cercam, estar disponíveis 24/7, não causar mágoas ou desagradar ninguém. Nada que seria ruim, caso junto não houvesse uma grande chance de auto-anulação. Na busca por manter intactos os sentimentos das pessoas, os tempos das pessoas, os desejos das pessoas, colocamos os nossos de lado porque “estão perto, é mais fácil cuidar depois”. E passam-se dois, quatro, oito, dezesseis meses – ou anos – e pfff… Aquele monte de coisa colocada de lado aumenta feito pilha de louça no frio: sempre a vemos ali, mas esperamos o momento certinho de resolver. Esperamos ele cair do céu. Com a louça é mais rápido porque, bem ou mal, uma hora não tem mais copo para beber água, talher para a pizza e panela pro arroz. Aí a gente encara, no frio mesmo. Com os nossos sentimentos de ladinho o processo é quase o mesmo, mas demora muito mais que poucos dias.

E a gente só percebe que não deveria ter deixado acumular quando o que falta é tempo para auto-cuidado, paciência para tarefas rotineiras e amor para si mesmo. Mas aí já era. Não é esponja e sabão que resolve, nem meia hora. É um trabalho de formiguinha, que talvez dure os dezesseis ou trinta e dois meses de acúmulo. Paralelo a isso, ainda é preciso manter aquele cuidado com os sentimentos alheios, o tempo alheio, a vontade alheia. Fazer o mundo entender que você não quer menos nada, não quer abrir mão de nada, só quer voltar a incluir quem você sempre foi em quem você se deixou tornar.

E que dificuldade é conciliar tudo isso numa sociedade que cismou que sabe ler sinais escondidos no que não tem letras miúdas. Quão trabalhoso é, além de tudo, entender e ser entendido, ouvir e ser ouvido, amar e ser amado na plenitude que todos os seres humanos deveriam – sem espaço para dúvidas.

Que cruel é perceber que enquanto fazemos cálculos e medimos palavras para não ferir ninguém, a vida está aí, seguindo o curso natural que eventualmente vai te arranhar. Você se anulando ou não. E quando isso acontece, não há nada a fazer. Sua imposição de seguir os seus sentimentos vai gerar animosidade. A galera não sabe lidar com o que chacoalha. Nem adianta dizer que o açúcar tá no fundo: não convence. Infelizmente.

O que resta é pesar, dia após dia, o que se quer, o que as pessoas que estão a sua volta querem, o que é seu e se perdeu e fazer a reconstrução aos poucos. Acreditar que a organização dessa pilha imaginária pode ser benéfica para todos, e curtinha. Torcer para a água não estar gelada e causar desistência. Torcer pra vida lhe ser gentil. Saber que ninguém morre por arranhões. Saber que amor, carinho, cuidado e afeto de verdade só existem com o outro se estiverem perfeitos de si para você mesmo.

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