Mulheres negras e o mito do inabalável

Pensam que nada nos atinge. Mas não é bem assim

Certa vez um amigo passava por problemas, e depois de muitas semanas de conversas e conselhos para que ele encontrasse a melhor solução, ele disse “e você, como está? Às vezes eu esqueço de perguntar, porque parece que nada te atinge”. Eu ri e disse que era normal pensar assim. E é. Respondi que estava mal mas que iria passar. E passa.

Joelle, Dear White People: mil questionamentos internos enquanto é a fortaleza para todos

Muita gente pensa desta forma sobre mim, e eu venho pensando nisso de uns tempos pra cá. Eu sempre fui uma mulher muito companheira, muito amiga e me dispus a ajudar todos que eu pude e posso ajudar. Sou apaixonada por pessoas, e sempre quis fazer bem a quem me cercasse. Por isto, demorou até que eu percebesse que poucos efetivamente se preocupam com o meu estado de espírito. Até pouco tempo, despejavam sem dó problemas e conflitos internos para que eu pudesse dar conselhos ou possíveis soluções. Com o tempo, eu passei a negar essas conversas, de acordo com minha real disponibilidade emocional, mas foi difícil.

O processo de negar escuta a alguém que você ama pode ser facilmente confundido com desprezo ou arrogância, mas poucas vezes é visto como autopreservação. E isso se agrava por conta da imagem de fortaleza construída em volta das mulheres negras, porque se elas tudo resolvem, para elas tudo é mais fácil, mais possível, menos doloroso. São elas, somos nós, que conseguem passar por inúmeros problemas sociais, econômicos e afetivos ao longo da vida com “garra”, “força”, “coragem”. Infelizmente. Ninguém nunca nos perguntou se queríamos este lugar, ninguém nunca nos permitiu não aceitá-lo. Tendo esta ideia como pano de fundo, ninguém nunca nos pergunta nada sobre nós mesmas. O estereótipo camufla a humanidade e nos pinta como aquelas que não gostam ou não têm tempo de desabafar seus problemas, pois estão muito ocupadas cuidando do resto do mundo. E nós, por muitas vezes, temos dificuldades em realmente dizer a todos aqueles com quem nos importamos sobre nossas angústias, puxar papo sobre algum problema ou demonstrar insegurança. Pensamos, de certa forma, que o mundo já nos massacra o suficiente tendo esta imagem, então a gente evita massacre duplo e não quer mudá-la mesmo.

Não somos frágeis, fracas. Somos muito fortes, e carregadas até aqui por ancestrais igualmente fortes e incríveis. Não quero, nem queremos, creio, ser vistas como inferiores. Mas há uma questão de respeito ao emocional, de um “auto-respeito” até.

Às mulheres negras que, como eu, às vezes ignoram sentimentos porque “não têm tempo”, um conselho: nada é mais importante que você. Cuidando de si, você cuida, também, de um povo inteiro, de gerações inteiras. Mas, principalmente, de você.

Ao mundo, um aviso: a gente é gente. Igual todo mundo. A gente chora, fica mal, quer desabafar. Muita coisa atinge a gente, sim. E resiliência não pode ser sinônimo de desumanização. Perceba as mulheres negras à sua volta, e se importe com ela — caso você, bem… realmente se importe com ela.

Isto evitaria metade dos problemas que vivi, vi e ouvi por aí. Não todos, mas metade. E isso já é muita coisa, acreditem.

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