Um assédio e o momento em que descobri ser sozinha

Lola Ferreira
Feb 12, 2018 · 3 min read

Eu acho o Carnaval a melhor festa que existe, e perde até pro meu aniversário. E jamais mudarei minimamente a forma como eu me relaciono com ela e seus elementos. Mas há eventos que marcam a gente por muito tempo, e eu jamais direi para sempre porque nem eu serei eterna.

Houve um Carnaval em que eu estava em grupo, e este grupo era relativamente grande. Em dado momento me desgarrei do tal grupo porque, por razões óbvias, o Carnaval do Rio é fascinante. Algo chamou a minha atenção e eu fiquei. Quando decidi continuar andando, olhei para o lado esquerdo e senti uma mão apertando meu pescoço. Pensei qu que era uma das pessoas que me acompanhavam tentando fazer um movimento de retorno ao rebanho. Isso durou um segundo. Depois senti meu rosto girando em direção ao lado esquerdo e para frente ao mesmo tempo. Havia um rosto ali, e era desconhecido. Isso durou mais outro segundo, e virou um beijo. Um beijo forçado e gelado, não por conta do desconhecido porque dele não ficou nada, mas por causa da reação do meu corpo frente ao acontecido. Eu gelei. E continuei andando com os olhos meio embaçados tentando entender o que havia acontecido, mas sem resposta a vista começou a limpar. Vi um rosto conhecido, dois, três. Tomei um esporro por ter perdido outra parte do grupo e, prontamente, respondi da forma mais grosseira quanto possível. Eu não havia e provavelmente não iria externar o que aconteceu em nenhum outro momento senão aquele. “Como eu iria ver enquanto tinha um cara me agarrando?”, gritei. E gerou reações piores. Uma piada, outro esporro, e em nenhum momento ninguém perguntou como eu estava. Os minutos foram passando e eu fiquei agoniada, porque ninguém perguntou o que aconteceu. Quem me ouviu gritar, não falou nada. Quem me viu reagir às reações, também não. Foi naquele minuto, naquele exato minuto, que eu percebi como somos sozinhas. E ninguém perguntou o que aconteceu. Há questões e situações que nos fadam à solidão e eu, ainda tão nova, não havia percebido isso. Lembrei dos momentos em que eu me perguntava porque solidão era palavra constante nas poesias, e percebi que ali eu estava diante de uma das respostas. A solidão é tudo, e a solidão está em tudo. Em alguns momentos permite-se dividi-la com alguém, em alguns momentos desejamos fazê-lo, mas às vezes não dá. E naquele dia eu chorei, chorei doído porque retomei lembranças que não queria, e tive certezas que estava feliz em não ter. E ninguém perguntou o que aconteceu. Eu era sozinha. E o discurso que todos temos diante das situações “vítima-culpado” cai por terra. Não preparamos nós mesmos para sofrer e para acompanhar sofrimentos. Temos uma cartilha perfeita a seguir quando é com o outro, nunca conosco.

Naquele Carnaval eu me perguntei muito de que vale fazer tanto pelos outros se na situação inversa não há ninguém por mim. E talvez não tenha de haver, e esta foi a maior dor. A solidão é justificável e estamos, todas nós, sozinhas. E ninguém perguntou o que aconteceu…

    Lola Ferreira

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    Repórter.

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