Viajei sozinha e me tornei uma das partidárias do “Viajar Sozinho Muda Vidas”

Não teve jeito, galera. Mas neste texto eu explico o motivo.

Lola Ferreira
Nov 22, 2018 · 4 min read

Menos de 24 horas antes de entrar no ônibus para viver quatro dias de uma coisa que eu não fazia ideia do que era, tive uma crise de ansiedade enorme. Pensei que iria morrer, pensei que iria ficar sozinha o tempo todo, pensei que não precisava gastar grana com isso, pensei em mil coisas. Coincidentemente ou não, foi depois de uma crise de ansiedade severa que eu decidi que iria viajar sozinha, e 24 horas depois estava com tudo pronto esperando a data de partida. A ansiedade, aliás, foi o motor e o controlador desse período.

Decidi por Paraty por indicação da Karen, e fechei a data porque seria a que eu estaria de folga, sem nem pensar em muita coisa. Recebi apoio das amigas mais próximas, do meu melhor amigo, da minha terapeuta. Era muita gente boa dizendo que daria certo para dar errado. Depois de uns dias lembrei que a data escolhida era no meio de um feriado nacional, e que a cidade estaria cheia, com milhares de pessoas para conhecer. Não deu outra: na manhã do último sábado encarei as cinco horas de viagem e desembarquei em uma cidade-histórica fervendo de gente.

Meu primeiro ato foi comprar um biquíni — porque em algum momento autosabotagem fez com que eu tirasse o meu da mochila sem maiores explicações. Meu segundo ato foi pegar um livro, comprar uma cerveja e sentar na primeira mesa de frente para o mar que eu vi. Fiquei ali por horas, até o calorzinho do fim de tarde dar lugar ao frio da noite. E foi sentindo aquela friaca que eu vivi o melhor momento da viagem: olhando para a imensidão do mar, sem ninguém para falar nada, eu tinha tudo para me sentir sozinha. Mas pela primeira vez em muito tempo eu senti que alguma coisa estava voltando para o lugar. Era como se eu tivesse viajado para encontrar comigo mesma, um encontro marcado há tanto tempo quanto adiado, e que eu estava ali naquele marzão me esperando. Inexplicável mas muito verdadeiro.

A imensidão do mar da Costa Verde e o lugar que eu escolhi sem saber para me encontrar

Depois dessa fusão de uma eu-perdida com a eu-de-sempre, fui ganhar a cidade. Curti bloco de Carnaval, bebi cachaça, dancei sertanejo e forró, bebi cachaça, comi muito camarão, dancei funk, ouvi samba, tomei banho de mar, fiz mini-trilha, bebi cachaça, ri de chorar, conheci gente em diferentes idiomas e sotaques e bebi cachaça.

Na fila da night, alguém me lembrou que, ao contrário do que a vida insiste em dizer, eu tenho só 25 anos. Na fila do ônibus, alguém com a voz doce me lembrou de que eu era uma ótima companhia para tomar um drink de Juçara e dançar no quilombo. No balcão do bar, entre um Jorge Amado e outro, muita gente me lembrou do quanto eu já tinha trabalhado (e trabalho!) com coisas incríveis na vida. Durante todos os dias em que estive ali, algumas pessoas pipocaram no caminho para falar com essa fusão de mim algumas coisas que, no meio de um turbilhão de eventos, poderiam ser esquecidas. Vale nota: a maioria, claro, era mulher. Guardei todas tão bem que vai demorar para que eu esqueça que eu sou realmente tanta coisa boa, como vinha acontecendo nos últimos tempos.

E é por isso, e só por isso, que eu vou dizer para todo mundo que viajar sozinha, e sem muito planejamento, é uma das melhores coisas para a cabeça de quem tá soterrado pela rotina, pelos problemas, pelas dúvidas. Tu vai quebrado e volta todo remendado, pronto pra calcificar. Como a vida não dá descanso, vai levar cerca de 24 horas depois do desembarque para tu tomar uma voadora. E uma rasteira. E um soco. E depois um chute na cabeça só pra tu ficar esperto. Vai parecer que tudo aquilo que resolvendo virou pó de novo, e que não vai ter mais jeito senão desistir de tentar arrumar a casa. Mas dura pouco, a incerteza.

E é nesse momento a prova dos nove: a força que tu encontrou é tamanha, mas tamanha, que quando tu vê, passou. E você permite curar a si mesmo, e se tornar impenetrável àquela mesma rotina, aos mesmos problemas, às mesmas dúvidas. Até ser inevitável se cansar um pouquinho… mas uns meses depois você repete, e viaja de novo. Nem que seja para o bairro vizinho, para a ilha do lado, para a praia no fim da cidade. Tu pode estar perdido longe, mas também perto. A graça é que não tem outra pessoa se não você a encontrar.

    Lola Ferreira

    Repórter.

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