É você o destruidor?

O inverno foi frio demais para não ficar escondido entre travesseiros e cobertas, entre os livros do Bataille e a televisão que só fala e nada diz. Minha mente rejeita a frequência do rádio constantemente. Venho me escondendo em um apartamento de um amigo no centro da cidade, saindo apenas uma vez por dia para comprar alguns alimentos. Durante o dia, me sinto vazio, e a noite, me encontro com novos pensamentos. Ansioso demais para dormir, cansado demais para não tentar. Será que estou me apagando? Espero que não.

Eu pude realmente sentir a escuridão das bandas de black metal que tomam conta do apartamento de Cato, vez ou outra. Hoje, ele quase nunca está por perto. Nem sei se posso considerá-lo meu amigo ainda, mas ele me deixa ficar por aqui, pelo menos. Cato é controlador, mexe com as minhas ideias, confunde minhas decisões (eu nem sei mais a diferença), mas ultimamente, ele tem gostado mais de ignorar as minhas ligações. Ele diz que também está deprimido. “Você está tão deprimido assim que não pode nem atender o telefone?” Talvez ele só esteja por aí, bebendo sozinho em algum bar que ninguém conhece.

Hoje o sol finalmente saiu e derreteu a neve que caiu ontem nos muros da cidade. Me perguntei que motivo o sol teria para se importar em acordar e clarear essa cidade de mortos-vivos. Olhei para a luz e pensei nos dias em que costumávamos sair para dançar e, depois, voltando só de dia, chorávamos as nossas mágoas com gosto de vinho barato a manhã toda, um no ombro do outro. Nós sofríamos pelas roupas que iríamos vestir, as palavras que não eram ditas, sofríamos até pela nossa própria felicidade. “E a felicidade, pelo menos, é possível?”

Eu me apaixonei pela primeira garota bonita que conheci. Era setembro, em uma discussão sobre ‘História do Olho’ de Georges Bataille num Festival de Literatura Sueco. Ela estava bem a minha frente, envolta nas palavras do escritor, mergulhando no texto como quem se entrega a um amante de braços abertos. “Os olhos são intocáveis, são o frágil, a alma”, ela dizia. Ela parecia brilhante. Ela viveu brilhantemente e mudou tudo. Às vezes eu me pego procurando pela versão antiga de nós mesmos.

Posso estar me afundando cada vez mais, mas pelo menos a autoria do meu próprio desastre é apenas minha. Finalmente levanto, me preparo um café, e me jogo no sofá azul desbotado como um idoso que não tem mais força o suficiente nas pernas. “São só 9 horas”. A mesa da cozinha forrada por papéis e cadernos cheios de letras de músicas que não consegui terminar. O glitter espalhado pelo chão, ainda daquela noite em que conheci Eva. A noite em que ela se confessou e eu fui seu padre, em frente a uma Igreja, em balanços de alumínio tão frios quanto as águas do Siena.

— Eva, me desculpe, mas eu nunca serei seu. Pra mim, você é apenas uma garotinha e eu preciso de uma amante com alma poderosa. Você não tem uma alma poderosa.

Ela se aproximou de mim, como em um sopro. “Não importa.” Encostou sua face contra a minha, num balanço bêbado. Eu saltei.

— Pare! Ei, você precisa saber que eu não estou sozinho. Eu tenho uma verdadeira tigresa lá em casa. E, além do mais, você não saberia o que fazer comigo.

Ela sorriu como só Eva sabia sorrir. Fomos como estranhos nos tocando pela primeira vez. Luminária esquelética, a esfera controladora, o falso padre.

Eva logo me deixou também. Esses dias eu a vi numa praça beijando garotas, pensei “ela deveria ser artista”. Mas, oh, não! Ela é uma rejeitadora oficial! Devia ter me protegido. Devia tê-la protegido contra mim. Eu tentei. Na despedida, ela me deu um abraço demorado com cheiro de rosas. Quando estava com ela, eu nunca realmente estava presente. Seus olhos verdes me fitando emoldurados pelos longos cabelos negros. “Eu sei que você não é ela, porque a garota dos meus sonhos é provavelmente Deus. Ainda assim, eu te quero.”

Foi tudo culpa da Nina. Ni-na. Não! Foi tudo minha culpa. As coisas poderiam ser diferentes, mas não são. Nosso projeto amoroso tinha tanto potencial. É como se não tivéssemos sido feitos para esse mundo (apesar de não querer realmente conhecer alguém que tenha sido). Nada podia derrotá-la. Nem a morte, nem esse mundo horrível. Às vezes me pergunto se ela me mitologiza, como eu sempre o fiz com ela.

Ainda no sofá, observando a disposição dos grãos de glitter no piso de madeira, ouvi o telefone tocar. Ignorei. Liguei a TV. Passava um filme antigo de terror. A garotinha gritando “violência!” histericamente para o terrível casal. Minha cena preferida. Sentei na minha mesa, algo mais parecido com tábuas de madeira que seriam jogadas fora, ajustadas e pregadas com perfeição. A luz do sol que entrava pela fresta da janela iluminava um pequeno bilhete inacabado que me observava fixamente. Eu o li em voz alta, como quem deseja adiantar o processo de maturação das células em uma pequena placa de vidro:

“Você não é diferente das marcas que enrugam os fios 
Ou mosquitos que agora operam em seu cérebro
Pensei que se eu mergulhasse no Siena, poderia te encontrar.
Você não é diferente do arranhão que microfonam das escadas
Ou falsos diamantes colados a uma coroa de plástico
Pensei que se você mergulhasse no Siena, poderia me encontrar.”

Poderia me encontrar…

A campainha tocou. Abri a porta, vestido apenas em cueca e camiseta de 3 dias.

—Você me disse que quando as nossas TVs estivessem a seis horas de distância uma da outra, você me ligaria pra dizer que sentia minha falta, que me sentia, ou qualquer outra coisa. Já faz 5 meses.
— Eu não sabia. Eu ando tendo crises de pânico, preciso de ajuda.
— Respire.
 — Ah, vamos lá! Meu humor precisa voltar ao normal de novo, me ajude… Não me deixe doente de novo.

Ela entrou e caminhou até o mesmo sofá azul desbotado. Observou o quadro na parede:
— Esse Magritte é novo.
 — Você gosta? Dizem que os surrealistas são só niilistas com boa imaginação.
 — Você concorda?
 — Não sei. Às vezes me sinto parte da obra.

Ela notou a cruz pendurada ao lado da mesa.

— Desde quando Cato é católico?
 — Cato católico. Funcionaria bem.
 — Tenho dúvidas.
 — Às vezes até penso em me entregar a um Deus, mas não sei qual.
 — Eu gosto do catolicismo.
 — Não sei… as igrejas estão sempre cheias de perdedores, psicóticos ou confusos.
 — Funcionaria bem pra você.

Pegou um cigarro e sentou na poltrona felpuda cor de sangue, ao lado da janela tão branca quanto sua pele. Um silêncio tomou conta do pequeno apartamento. Ainda em pé em frente à porta, eu permanecia imóvel.

— Cadê ele? — Ela sussurrou.
 — Quem? Cato?
 — Sim.
 — Deve estar raspando o cabelo, sozinho, tomando whisky, na casa de alguém.
 — Ele está deprimido. E você parece terrível.

Acendendo o cigarro, mexeu no curto cabelo que deixava seu pescoço para fora, e insistiu: “Sente-se logo.” Me sentei na cadeira do outro lado da sala, o estofado já desgastado pelo tempo.

— O que tem feito?
 — Nada em especial.
 — Você sumiu.
 — Eu sei.
 — Você ainda tem pesadelos comigo?
 — Às vezes. — Suspirou cuidadosamente, batendo o cigarro na borda da janela.
 — Por que você voltou?
 — Porque, não importa onde nós estejamos, nós sempre estamos ligados por fios subterrâneos.

Rapidamente, me levantei, contrariado, retornando à cozinha. Peguei outro copo do café, agora frio.

— Do que você tem medo, afinal? — perguntei, me virando para a janela, em direção a Nina.
 — Que você me traia e me deixe.
 — Eu não ligaria se você me traísse, se você ficasse por perto… É tão vergonhoso precisar de alguém como preciso de você…
 — Ah, não faça isso… eu não consigo te explicar, mas preciso de você por perto e longe, ao mesmo tempo.

Silêncio. Como em câmera lenta, me abaixei ao seu lado. Sentei no chão, enquanto suas mãos leves e finas pousavam em minha cabeça, desfazendo aos poucos os nós cultivados em meus cabelos, agora longos demais.

— Então, já que vai me deixar, me ensine algo lindo, — olhei-a nos olhos, me levantando — coroe a minha cabeça!

Nos levantamos juntos, em uma dança. Eu a girava, e gritava melodiosamente, como quem declama um poema:
— Povoe a minha cabeça com os seus efeitos harmoniosos! Projete os seus medos em mim, eu preciso vê-los! Eu preciso te mostrar que não significam nada! Eu prometo que não significam absolutamente nada!

Nina ria em desespero, de mãos dadas comigo, girando em círculos. Paramos de repente. Ela ainda ria. Fiquei sério. Em um abraço curto, a apertei nos meus braços. Sussurrei:
 — Eu me emociono com a sua bondade. Você faz eu me sentir tão criminoso. Como você consegue?

Nina, então, parou de sorrir. Abaixou a cabeça e olhou os grãos de glitter no chão.
 — Você tem visto a Eva?
 — Não. Esse glitter ainda é daquela vez.

Caminhando até o sofá, silenciosamente, ela então segurou uma pequena luminária esquelética cor de nada, que se posicionava em cima do tapete antigo da mãe de Cato, e como em um palco, começou sua história:

— Era uma vez uma garota que se apaixonou por um garoto que falava uma outra língua. Ele vivia do outro lado do Oceano, no Império do Mal. — Segurando a luminária, Nina ia se movimentando lentamente pela sala. — Ele acordou seu coração adormecido e varreu a escuridão pra longe. Mesmo um pequeno medo de voar não a poderia afastar dele.
 — O que está fazendo, Nina?

Ainda caminhando lentamente pela sala, até a cozinha, ela continuou:
 — Ela caiu aos seus pés, e se juntou ao seu grupo de rock amador, enquanto faziam uma tour pelo Império do Mal, vendendo camisetas nos shows…— começou a aumentar seu tom de voz lentamente — Ela o ensinou o que era real, ela o disse que ele estava bem, que seus pensamentos não eram apenas besteiras, que ele tinha algo bom para oferecer!! Mesmo assim, seu coração era tão ambivalente e desesperado que ele não tinha certeza de nada. Mas ela, se entregou tão docemente, que um espírito o disse: “querido, é melhor você correr pra ela!”

Em um só impulso, jogou a luminária cor de nada em minha direção e começou a gritar: 
— Então, quando ela partiu, ele subiu em um avião, com seus pais e seu irmão, — continuou, com a voz trêmula, agarrando uma maçã em cima da mesa da cozinha e jogando-a novamente em minha direção — disse que a amava, e os dois se casaram no verão.

Mergulhada em suas lágrimas, Nina agarrou outra maçã no cesto, mas sem forças, deixou-a cair em seus pés.

— O que você quer? Que eu grite na sua cara?? Preciso ficar aqui, desviando de suas luminárias e frutas! Jogue tudo em mim! Eu não ligo! Vamos destruir os nossos corpos, a nossa casa, o mundo inteiro! Vamos ter um pouco de diversão aqui!

Um longo silêncio tomou conta de nós dois. O apartamento, já bagunçado, agora recebera cacos de vidro e frutas rolando pelo chão. A xícara de café, caída, era sequenciada por uma enorme mancha de café formada no tapete. De repente, observando aquela mancha, percebi que toda a minha esperança estava perdida. E havia perdido tanto mais nesse nosso pequeno colapso.

Nina se acalmou. Limpou a maquiagem dos olhos e caminhou em direção à porta. Sem me olhar nos olhos, cabeça abaixada, murmurou:
 — Não se preocupe, Kev. Essa escuridão é apenas uma das sugestões que a vida nos dá.

Saiu pela porta, sem nem fechá-la. Caminhei lentamente até a janela branca da sala. O ar ainda cheirava a Nina. Observando as pessoas na rua, me vi alérgico ao mundo. Não existe mais nada no meu coração que valha uma só batida. Nós falamos, falamos, falamos, mas nada que valha a pena ser repetido. Por mais que tentemos quebrar o ciclo, estamos sempre presos na mesma repetição de nós mesmos. Ela pintou a minha prisão com a delicadeza de um renascentista, e agora algo está errado. E eu nunca, nunca gostaria de estar contando essa história.

Estou me matando, mas não é suicídio. Estou morrendo, mas meus amigos nunca nem saberão porque eu nunca fui honesto com alguém. Sempre vestindo máscaras dos menos atraentes cantos da minha consciência. Eu me sinto derrotado.

E eu nunca gostaria de estar contando essa história. Eu sempre achei que as coisas pudessem mudar, de alguma forma, e que poderíamos voltar a nos falar, mas é irreversível. Desesperança. Me penduro no ar e me balanço em um único trapézio imaginário. Nenhum dos nossos segredos são físicos agora.

Eu sou o destruidor.

Conto baseado no disco Hissing Fauna, Are You The Destroyer? (Of Montreal).