6
A mais inocente das noites ainda é a minha preferida.
A rádio cafona tocando no vizinho, o gato pulando da cama para a janela, a respiração toda errada de quem tinha medo mas sabia que tudo já estava mudado. A mais inocente das noites mudou tudo. E ríamos, como crianças, presos no limite que nossos próprios corpos colocaram. Eu não dormi. Fugi cedo, como um gato assustado, com medo do que pensei enquanto não dormia. Meus cabelos foram embora de seu alcance, mas eu ainda podia sentir seus dedos, numa pequena valsa, lenta e cuidadosa. E o coração ainda batia, ansioso.
Foi o dia em que as mechas de cabelo branco, perfeitamente colocadas em sua cabeça, brilhavam mais do que deveriam. O sorriso, o interesse, o cuidado. O cigarro segurado à distância. Um pouco exibido, como eu, mas definitivamente real. A timidez presente, que depois do terceiro copo de cerveja no cinema, desapareceu. Proximidade quase proibida. Meus cílios enormes, alinhados com as listras da camiseta que eu ousava tocar. “Hoje eu me sinto tão livre!” É essa a liberdade que procuro, desde então.
Folheamos um só livro pelo resto do dia. Uma mão na página, outra no copo, essa mesma dividida entre as faixas das playlists musicais que criamos ali. Proximidade proibida. “Meu irmão perdido”, eu pensava. Era simples. Divertido, livre, inocente. A tensão juntava tudo em uma só cola. Manteve tudo aquecido. Intimidade de pensamento. O frio batendo na cara daqueles que andavam em busca de alimento, em um mesmo passo, como irmãos de tanto tempo. O mesmo lanche, a mesma pose de espera, quisemos até que morássemos num mesmo lugar (vício de palavra de quem divide a vida já há algum tempo com outra pessoa). E na viagem de volta, descobrimos lugares novos, ainda que tão próximos.
A maior intimidade que tivemos foi dividir a comida. Os dedos oleosos, comparando-se a garras. As mordidas longas, alternadas entre as conversas sobre o atendimento ao consumidor das empresas de ketchup. “O problema é que você é foda demais.” Agora eu sei qual era o problema.
O problema é que fomos laçados. Pelos astros, pelas paixões, e pelo medo. E foi nessa noite, a mais inocente das noites, que eu percebi o laço. Mas ele é leve, parece música. Flutua no ar, entre inconstâncias e incertezas, mas sempre ali. Presente ou imaginária. Minha ironia de liberdade.
