Homens-Metade

Tenho certeza de que você já deve ter ouvido as histórias mais maravilhosas sobre as mais diferentes criaturas, ou pelo menos imaginado algumas. Mas hoje vou te contar sobre criaturas reais das quais você nunca ouviu antes.

Eles estão espalhados sobre o mundo todo, pelos seis continentes que formam a Terra. São como robôs, mas têm sentimentos. Nem sempre são sentimentos positivos, mas sei que eles não são vazios. Acredita-se que esses seres sofreram uma conversão nos últimos anos e continuam a sofrer uma nova a cada atualização.

Têm aparência cansada e olhos vermelhos. Seus corpos terminam logo abaixo de seus tórax. Eu os chamo de Homens-Metade. Se locomovem utilizando um pequeno aparelhinho de tela brilhante que, acredito eu, foi o responsável pela transformação dos mesmos. Eles mesmos congelam suas imagens sob a tela fria do aparelho e, a partir dela, passam a fazer parte de algo que acreditam ser maior. Eles se tornam alguém dentro de uma sociedade (não tão) secreta e a partir desse alguém, parecem coletar vidas, como em um jogo. Chamam de curtidas ou “likes”. Quanto mais têm, mais importantes se tornam, mais contentes seus verdadeiros eu-robotizados acreditam ser.

O aparelho parece ter vida própria, mas precisa do seu Homem-Metade para o alimentar com energia, alguns dados e sua imagem. Se tornaram dependentes um do outro. O Homem-Metade depende de seu aparelho para obter satisfação pessoal enquanto mal percebe que o aparelho o consome a cada imagem sua que é congelada.

Houve uma época em que os Homens-Metade eram inteiros. Mamãe me disse que a cada imagem deles mesmos que registravam, eles ficavam menores e menores. Perdiam os pés, depois as canelas, os joelhos, as coxas. Perderam suas virilhas, e agora suas barrigas. Não se importam, afinal sempre se sentiram gordos demais. Hoje, todos estão pela metade. Muitas crianças ainda resistem inteiras. Mas quando chegam aos 10, 11 anos, passam a perder os seus pés.

Por causa de suas condições físicas, os Homens-Metade não se exercitam muito, mas mantêm os dedos das mãos bem alongados. O contato humano é quase nulo fora do aparelho, sendo este o que promove todas as conversas entre eles. O aparelho parece disfarçar a realidade para os Homens-Metade, não os deixando perceber que estão perdendo partes de seu corpo. E se percebem, não se importam.

Nos momentos de sociabilidade dentro de seus universos secretos, falam sobre futilidades ou esbravejam absurdos. Não existe consequência no mundo real. Afinal, o mundo real do Homem-Metade é o mundo dentro do aparelho. Fora, se tornaram rígidos, como se feitos de lata. O que acontece do lado de fora não os atinge. O aparelho os absorve pouco a pouco, tanto externa quanto internamente, e não há mais o que ser feito.

Hoje, vi um Homem-Metade ser completamente absorvido. O consumo de seu corpo estava bastante adiantado, e já estava perdendo a cabeça. Aos poucos, seu braço esquerdo, que não estava conectado ao aparelho, foi sumindo. Seu tronco foi rapidamente absorvido, sobrando só um único braço, ainda alimentando o seu aparelho. Ou melhor, sendo alimentado por ele. Seus dedos, agitados, foram a última parte a sumir. O aparelho o havia capturado completamente, e agora era seu escravo, preso dentro da mais brilhante tela.

Minha vontade era de tirar o aparelho de todos os Homens-Metade. Libertá-los. “Já faz parte da nossa vida”, dizem(os). Mal percebem(os) o seu (nosso) fim. Mal percebem(os) que não perdem(os) só partes de seu (nosso) corpo. Perdem(os) sensações, sons, cheiros. Perdem(os) os mais delicados detalhes. Perdem(os) o calor, o coração, a consciência. Perdem(os) o início e o fim, restando-nos só o meio.

Perco meus próprios pés.

Os Homens-Metade não podem ser pela metade. Precisam ser inteiros.

Mini-conto baseado em um sonho.