O grilo

Vamos ser clichê mais uma vez: mas essa vida é engraçada, não é mesmo? Ela caminha devagarzinho para lugares que a gente nem imagina, e quando a gente vê, já tá tudo diferente de novo. Acho que é pra gente nunca se acostumar. Ela sempre arruma jeitos novos de nos surpreender, pelo bem ou pelo mal. Comigo, foi pelos dois.

Sabe aquele grilo pequeno e chato que fica soprando no seu ouvido, avisando que tem algo de errado e que é melhor você mudar logo? Então, eu convivo com ele desde que posso me lembrar. E eu sempre o escutei. Talvez seja culpa dele a minha dificuldade de concluir meus projetos, mas eu tento sempre seguir o que o pequeno grilo me diz porque sei que é o que me faz realmente viva.

Então, ultimamente o grilo tem me enchido o saco, realmente. Eu arrumei um emprego, e achei que o grilo não fosse mais aparecer, porque olha só que mudança! Mas não era isso que aquele “cri cri” estava querendo me dizer. Então ele continuou, e se tornou cada vez mais forte, e eu não estava ignorando-o, eu só não sabia o que ele queria me dizer.

OBSERVE OS DENTES!!!!!!

Ultimamente, a minha principal reclamação tem sido: “NÃO TENHO TEMPO PRA NADA!”, e acabei culpando muito o meu emprego por isso, afinal, antes eu tinha tempo pra muita coisa. Eu comecei a sentir falta dos meus discos, das minhas séries, dos meus filmes, da minha aquarela. Meu corpo e minha mente foram começando a ser dominados pelo grilo, que já não era mais tão pequeno assim e se tornava uma criatura realmente apavorante e ameaçadora (com dentes!).

O grilo aumentou a minha ansiedade num nível gigantesco e a minha tristeza ficava cada vez maior. Comecei a faltar bastante da faculdade pra conseguir ter um tempo pra mim e tentar calar o grilo. Até que percebi que se estava faltando da faculdade para conseguir ter um tempo para fazer o que eu gosto, talvez seja porque eu não esteja no caminho certo. Talvez a faculdade tenha virado apenas uma obrigação, algo que não me dava mais prazer. Me vi com apenas 20 anos, iniciando o segundo ano de Letras, pensando em largar tudo e ir atrás do que eu amo. Pensei em todos os aspectos dessa mudança, pensei que vender minha arte na praia realmente não funcionaria agora, pensei em fazer cursos de arte, tentar vestibular novamente, pensei na questão financeira. Até que precisei me perguntar: “que diabos você realmente quer fazer da sua vida, menina Lola?”, e a resposta veio rapidamente. “Quero criar!”. Quero criar. Quero desenhar, quero pintar, quero escrever, quero compor, quero filmar. Quero filmar.

Enquanto elaborava a minha linha de pensamento, o grilo, que já estava gritando, passou a sussurrar conforme o andamento das minhas ideias. Ele diminuiu de tamanho. Meu dia, que havia começado cheio de medos e tristezas, de repente se tornou o dia mais feliz do mês (e eu ainda nem recebi meu salário). Me informei ao máximo possível, conversei com 54.336.551 pessoas, incluindo minha psicóloga. Estava realmente na hora de mudar.

Consegui, em 3 dias, ir de “extremamente desanimada e ansiosa” para “sorrindo enquanto pego o ônibus às 8h da manhã”. E então vi que estava certa dessa vez. Me fiz certa de que não é apenas excitação pela mudança, como quem pinta o cabelo de azul no sábado e na segunda já volta ao castanho de novo. Fiz listas de prós e contras, e como quem vai fazer uma escolha sem volta, decidi que trocaria meu curso. Não é uma escolha sem volta. É uma grande escolha, porque é o seu futuro que está em jogo. Mas é uma escolha que vai me proporcionar a chance de criar constantemente, atuar ativamente, fazer eu me sentir mais leve. Vai me fazer mais feliz assim como já faz, e eu nem comecei ainda!

O grilo ainda faz “cri cri” no meu ouvido, mas agora é tão baixinho que parece música. É o mesmo “cri cri” que todos nós temos. Só não posso aceitar que o grilo se torne gigante e que seu grito sobreponha o meu. Mas já não tenho mais medo dele. É ele quem me faz mudar, quem não me deixa cair na rotina, quem me alerta contra a comodidade. O grilo que me deixou tendo ataques de pânico é o mesmo que, agora, me deixa descobrir o meu caminho calmamente. O grilo é aquele alarme que toca às 6h da manhã pra te fazer ir trabalhar. Se você o ignora, aposto que, chegando atrasado, o seu dia não será mais tão bom assim.

É só não ignorar o grilo. (E arranjar um tradutor de grilês para tentar descobrir o que ele quer dizer quando faz “cri cri”.)

O resto a vida ajeita.