Olhos de Julia

Esse poderia ser o nascer do sol mais triste que já vi. Era uma sexta-feira, 5h30 da manhã. Os meus olhos cansados e meu coração dolorido. A cabeça doendo da noite passada. Não parecia estar ali, parecia estar a meio mundo de distância.

O ônibus demorava mais do que o normal. “Merda, vou chegar atrasado mais uma vez.” As pessoas no ponto com a cara ainda amassada do travesseiro, se envolviam separadamente em um longo abraço egoísta que as protegia do frio que fazia aquela manhã. Repetindo, como um mantra, dentro da minha cabeça: “seguir em frente e aguentar mais um dia”. Acordar cedo nos torna pequenos terapeutas de nós mesmos.

Um carro se aproximou rapidamente do ponto de ônibus. A porta bateu, todos olhavam a garota que saia do carro quase caindo. Gritava. “Não preciso de você, ouviu? Não preciso!”. Se aproximou de mim, se protegendo do frio. “Tudo bem?”, perguntei. Ela balbuciou alguma palavra que não entendi, mas pelo movimento de seus ombros soube que não era nada de mais. Um silêncio tomou conta. Os ônibus que passavam um atrás do outro, mas nunca o meu.

“Que ônibus você vai pegar?”

“Não vou pegar ônibus, um cara vem me buscar.”

“Acho que aquele cara não volta mais…”

Ela riu. “Não volta mesmo. É outro.”

Olhei com atenção para a garota com maquiagem do dia anterior que estava ao meu lado. Ela não era estranha. Seu rosto era comum na minha memória. Me lembrava uma garotinha com quem havia estudado anos atrás. “Você não chama Julia não, né?”

“Sim, Julia… como você sabe?”

“Acho que estudamos juntos no Fundamental.”

Após me encarar por alguns segundos, abriu um sorriso. “Não acredito! Du, como você está? Nunca te reconheceria! Você está diferente!”

Hum, diferente pra melhor ou pior? Sorri um sorriso curto, mas sincero. Nos envolvemos em um longo abraço, que parecia aquecer um pouco mais aquela manhã. O sol já havia nascido totalmente.

“E então? O que tem feito?”

“Ah, você sabe… vivendo a vida, bebendo umas cervejas, ouvindo música…”

Notei que ela estava sem uma das botas que vestia. Ela notou que eu havia percebido, e completou: “…perdendo sapatos, você vê…” Ria descaradamente. “E você?”

“Estou trabalhando… bebi um pouco demais noite passada, minha cabeça parece que vai explodir.”

“Ah, o capitalismo… Dizem que todos nós nos rendemos algum dia.”

“Esse mundo é um desperdício. A gente tem que trabalhar e nem sabe por quê.”

“Pois é… por isso que eu bebo. Meu negócio é festejar a vida enquanto dá tempo.”

Silêncio. Inquieto, chequei o horário. Olhei pra ver se era meu ônibus vindo. Nada. Olhei para Julia. Ela tinha olhos patéticos, vivos. As árvores balançavam com o vento, levando nossos medos embora. Por um momento, senti paz.

“Engraçado como a gente se perde um do outro desse jeito. Éramos tão próximos, não é?”

“Sim. Acho que precisamos nos perder assim. Faz parte do ciclo dos relacionamentos.”

Ela aceitou meu comentário bobo, quieta. Parecia uma pessoa totalmente nova, distante da Julia do Fundamental, mas com o mesmo frescor de criança curiosa.

“Ainda bem que nos perdemos. E ainda bem que você está trabalhando. E ainda bem que aquele babaca me deixou nesse ponto, nessa hora. Agora podemos nos reencontrar.”

“Começamos agora um vida nova, não percebeu?”

“Hum, sim. Não temos mais volta. Estou apaixonada por você, Du…” — disse, ironicamente— “Agora você precisa me amar…”

“Acho que devo te pedir em casamento. Podemos nos casar e ter uma linda casa e lindos filhos!”

“Sim! Ou podemos morar em um ponto de ônibus e ter aquele casal de pombos como filhos!” — apontou as pombas do meio-fio.

“Parece perfeito! E então você vai conhecer um empresário bonitão e milionário e vai fugir com ele pra Europa, e vou ficar velho e encolhido jogando videogames e cuidando dos nossos filhos-pombos”

“Parece OK pra mim!” — Julia gargalhava junto comigo. Uma risada seguida por um silêncio bom.

Naquele momento, meu ônibus chegou, interrompendo de vez nossos anos de casados.

“É meu ônibus. Sua carona já está chegando?”

“Acho que sim. Me passa teu número.”

Trocamos nossos números, outro abraço e promessas de não nos perdermos um do outro novamente.

“Me manda uma mensagem quando chegar em casa. Você está incrível, Julia!”

“Você está terrível, Du! Cuide dos nossos pombos!”

Ela sorriu. Entrei no ônibus, ensolarado. As horas passaram e nunca recebi a mensagem de Julia. Também, não importava mais. Resolvi pensar naquela manhã como a vida toda que teria ao lado dela, e que nunca mais poderia ter. Um encontro rápido, com início, meio e fim.

Esse poderia ter sido o nascer do sol mais triste que já vi, e que se transformou em um milagre, vivo como os enormes olhos de Julia.

Texto baseado na música “Half A World Away” — R.E.M.
Ideia inicial de Breno Gualdani.

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