14. Não é fácil

Setembro é mês de conscientização sobre Alopecia Areata e eu estou contando 30 histórias sobre minha vida sem cabelo. #alopecia#alopeciaawareness

Quem lê algumas das histórias ou, ainda, me conhece hoje, pode achar que foi um processo fácil. Que entre ter um cabelo até os ombros — que eu acordava às 5h da manhã para fazer escova antes de ir para o colégio — e não ter cabelo foi uma transição tranquila.

Não foi. Passei mais horas chorando no banheiro do que eu gosto de admitir. Chorei litros quando sentei na cadeira lá do Sandro e experimentei uma peruca pela primeira vez. Parecia o fim do mundo e, não vem me falar que não é pra tanto, quem nunca passou por isso não sabe o que é.

Eu mesma não sei descrever a sensação de ter todo o seu cabelo no travesseiro, todo mesmo. A minha queda mais drástica foi ainda espaçada ao longo de um período de alguns meses, mas conheci gente que perdeu o cabelo em poucos dias. Imagina?

É uma transição difícil, entre você ser mais uma na multidão e ser aquela que todo mundo olha. Que as crianças conversam entre si e te apontam e falam que você usa peruca. E as crianças todas vem pedir para você tirar a peruca, porque é peruca mesmo, ué, tira pra gente ver.

Uma vez eu estava num projeto e tinha ido com uma peruca que eu amava e as crianças todas alucinadas: “Tia, tira, deixa eu ver! É peruca? Tira. Poxa tia, tira só um pouquinho, mostra pra gente”. Quer saber? Tirei. Tirei e fiquei sem peruca. Arrumei ela bonitinha e guardei na mochila. “Tia, põe de novo, tá feio. Tia, não é bonito assim, põe a peruca. Tia, não gostei, tá feio, coloca ela de volta. Coloca de volta, tia.”

Não coloquei. A gente ia mexer com tinta, nem fazia muito sentido eu estar de peruca mesmo, só usei aquele dia por estar curtindo aquela peruca em especial. Mas, o ponto não é esse, o ponto é que se alguém tivesse me contado que a vida ia ser assim, talvez eu ainda estivesse chorando no banheiro, morrendo de medo de ser apontada na rua. Nunca me achei forte o suficiente para ser apontada na rua.

Mas uma coisa que a vida me ensinou foi que a gente lida com as coisas conforme elas acontecem. Não ter cabelo me fez forte, ser apontada na rua me fez olhar para mim com mais carinho, sabe? Geralmente a gente nunca é muito gentil consigo, pode reparar, mas quando ninguém mais é, você precisa ser. Fui parando de ter pena de mim com o tempo, com um olhar calmo e dedicado para dentro. Não foi rápido nem fácil, mas aconteceu.

*A foto é desse dia em que eu fiquei sem peruca e as crianças vinham me dizer que tava feio. Não tenho as fotos do “antes” de tirar a peruca, mas tava legal tb.

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