Die Lüge

A mim impressiona o quanto é natural mentir. Tão comum que já nem se nota o deslize, se é que deslize seja considerado. É tarefa fácil para nossa engenhosidade. Difícil é esconder aquilo que deveras se é e não se gosta de ser. Camuflar verdades cansa mais que sustentar mentiras. Tão simples é se decretar herói, tão intricado se assumir vil; é irônico, sendo que se veem centenas de vilões contra um esporádico -e duvidoso- herói nos noticiários. Onde estão noticiados os atos de heroísmo dessa horda de paladinos autodeclarados? Tecer falsos valores para nós mesmos é uma tarefa já tão admitida, que parece estúpido quem não exibe algumas virtudes adicionais na sua vitrine. Assim, todo mundo soa como um comercial super produzido, desfilando infinitas qualidades. Nunca vi alguém assumir um preconceito, sequer admitir uma falha de julgamento; os inadequados parecem apenas surgir quando são flagrados no ato de baixeza, e então se vê uma turba de seres impecáveis pronta para sobrepor a autocrítica com uma tonelada de críticas fáceis ao alvo abatido. Parece que se aceita uma absurda ideia de que existem seres que nascem perfeitos, e outros fadados à desgraça de ser desprezível, sendo que tantos e tão diversificados são os códigos morais dos homens, que nenhuma criatura na Terra seria capaz de satisfazer a todos eles. Somos todos imorais para com o código de conduta de algum outro alguém. Para mim, traria mais satisfação ver pessoas convertendo experiências mal sucedidas em instrução do que marionetes aparentemente humanas que só servem de fachada para acobertar as inevitáveis falhas de juízo que todos nós havemos de cometer. Aquele que, ao afligir outro, assume o seu ato de injúria, vê surgir uma verdadeira chance de arrependimento, de tal forma que a sua empatia se fortaleça. Já o que acredita que tem a bondade como qualidade inata, terá sempre uma justificativa para cometer atrocidades, visto que tem a si como bom e terá como definitivamente mal aqueles contrários ao seu código moral. O maniqueísmo exclui a possibilidade de redenção.

Talvez não haja uma pessoa sequer, ou muito raras são, que esteja livre da hipocrisia ao chamar alguém de mentiroso. Mas ninguém é tão bom mentiroso a ponto de lograr a si mesmo; os pseudo heróis são derrubados do voo por aqueles que tem o arrojo de declarar que nenhum homem tem super poderes.

Não há pessoa infalível.

Nossa falibilidade é, na verdade, nosso mais eficiente instrumento de aprendizado, basta aceitá-la.