No ano de 2015, eu estava saindo de um casamento mono infernal, um relacionamento em que houve abuso de ambas as partes e que no fim ninguém mais se tolerava, todos se oprimiam e estavam em frangalhos emocionais.
Mas foi durante esse inferno que eu me descobri não-mono. E tinha decidido que não iria tentar viver monogamicamente de novo.
Comecei a me aproximar das pessoas dos rolês (by the way, moro no Rio de Janeiro). A princípio, parecia ter feito uma ou outra boa amizade, mas fui ingênuo, me abri demais publicamente, revelei muito da minha vida, dando armas para eventuais “inimigos” (eu nunca tinha tido inimigos antes na vida, mas por algum motivo alguém me tomou como um). Já explico.
Devido ao meu estado emocional, um misto de excitação e alívio pela liberdade adquirida, depressão e tristeza pelas consequências nefastas do antigo relacionamento, carência, descobrimento da minha bissexualidade, etc, eu precisava de apoio. Não estava encontrando isso no meio não-mono. Entendo que as pessoas tenham vida corridas, tenham outras relações, e que disponibilidade afetiva não vem assim à jato. Estava saindo e trocando ideia com algumas pessoas, mas continuava me sentindo sozinho e desamparado.
Me reaproximei de uma amiga colorida muito antiga, na verdade nos conhecemos há 26 anos. Esta amiga me deu o apoio, o cuidado e a disponibilidade afetiva que eu precisava. Comecei um relacionamento aberto com essa pessoa, quis levá-la para a não-mono, palestras de desconstrução, comprei livros, etc. Estava disposto a ter paciência enquanto ela percorria o processo, e enquanto eu avaliava se nosso relacionamento teria um futuro não-mono, se eu ia abdicar de ser não-mono para viver com essa pessoa, ou se não daria certo mesmo.
Bem, não deu tempo. Enquanto o acordo que eu tinha com ela era que ela não gostaria de saber quando eu ficasse com outras pessoas, a turba de “anarco-fascistas” (esse termo é uma aberração mas é meio que isso) resolver nos atacar, e pegando pelo lado mais fraco, ela. Começaram a criar perfis fake e mandar mensagens para ela dizendo com quem estava e aonde. Algumas vezes era verdade, outras era invenção mesmo!!! Xingaram ela, chamaram de “corna”, “loira burra”, “otária”, entre outras coisas que não vale à pena repetir…
O resultado: eu me afastei do meio não-mono, pois fiquei com medo dos novos “amigos”, não sabia em quem podia confiar, com quem podia me abrir… Eu sou uma pessoa muito transparente, herdei isso da minha mãe, e minha vida sempre foi um livro aberto. Foi duro o aprendizado de que no mundo existem pessoas que querem te prejudicar de graça, querem te ver infeliz sem vc ter feito nada contra elas, e que se abrir assim era dar arma para o inimigo. Eu juro que queria ter permanecido no meio só por uma ânsia de dar uma de “detetive” e desvendar quem estava fazendo isso. Minha vontade era de arrebentar a cara do sujeito. E se fosse mulher, minha companheira daria conta do recado, pra eu não cair numa Maria da Penha. Mas minha saúde mental era mais importante, e também minha companheira já havia sofrido o suficiente, suportado o suficiente em nome de uma suposta “desconstrução” para permanecer ao meu lado. Optei por ela, pois ela estava me fazendo bem, não essa balbúrdia do meio não-mono, que embora tenha sido sexualmente maravilhoso, emocionalmente não evoluiu muito. Até conheci pessoas de quem gostei, de quem quis permanecer junto, mas diante da dúvida se determinada pessoa poderia estar envolvida nisso, e diante do desgaste já sofrido na minha relação com minha companheira, a única pessoa que estava efetivamente me dando a mão enquanto eu levantava.
Eu nunca tinha sentido ódio de alguém, ou de um grupo, na minha vida. Mas nessa época eu senti. Muito mesmo, pois essa(s) pessoa(s) ME ROUBOU(ARAM) a experiência da não-monogamia, pois me obrigou a me afastar em meio à minha própria descoberta dessa identidade. Simplesmente não deu tempo de viver uma experiência de fato não-monogâmica e duradoura para aprender, evoluir e tirar minhas próprias conclusões.
Eu acreditei mesmo que aquele espaço era um espaço seguro, um espaço de apoio. Mas não. Atacar covardemente uma pessoa só por ser monogâmica e estar tentando relação com alguém que se declarou não-mono é um tipo de fascismo sim. Apoiar aqueles indivíduos ou casais que querem se desconstruir é oposto disso. É uma espécie de crime de ódio sim. Ódio aos monogâmicos, mesmo que eles estejam tentando entender o que é não-mono.
Para mim, a não-mono era sobre abolir a normatividade nos relacionamentos, não querer criar uma nova norma. Se me revolto do estado, da igreja e da sociedade querer “cagar regra” pros meus relacionamentos, por que diabos vou querer que um grupinho de gente perturbada (a maioria menos madura, menos experiente e mais nova que eu) cague regra no meu relacionamento!?!?? Há pessoas que são monogâmicas, são felizes assim, não querem mudar. O objetivo não era reconhecer toda forma de amor? De libertar os diferentes das amarras normativas!? Aonde que atacando PESSOAS esse movimento chega a algum lugar? Veja bem, não estou falando em atacar a monogamia no campo das ideias, o que foi feito foi ATACAR A HONRA DE UMA PESSOA. E o pior, uma pessoa super na dela que quase nunca interagiu com as outras, muito menos ter dado motivo pra isso…
Muito bonito seu texto, mas veja, a loucura e as práticas nefastas que existem hoje no meio não-mono do Rio de Janeiro vitimiza também os privilegiados, os cis, os magros, os brancos..
Tá tudo errado.
P.S — Eu e minha parceira permanecemos juntos até hoje. E nos amamos, nos respeitamos e nossa vida é maravilhosa. E hoje não estou mais em frangalhos emocionais, estou forte e recupoerado financeira e psicologicamente. Chupa seus anarco-fdp!!!