Despedidas

Marina Lopes
Nov 4 · 2 min read

Numa madrugada de segunda feira, me recordando de algumas amizades antigas, comecei a notar que minha relação com despedidas nunca foi algo fácil. Desde pequena tive problema em aceitar certas perdas que para mim não faziam sentido algum. E creio que até hoje ainda não fariam. Lembro que meu primeiro contato com esse tipo de sentimento foi aos 5 ou 6 anos, quando a filha da minha prima paterna, de apenas 3 aninhos faleceu depois de um acidente extremamente estúpido. Não me recordo de forma muito clara dessa época, mas nunca esqueci da missa do 7° dia da pequena Rafaela.

Engraçado que em minha inocência de criança,optei por fingir que aquilo era só uma missa normal. Sentada ao lado da minha tia, não parei de falar nem por um minuto sobre os novos brinquinhos de coração amarelo que eu tinha ganhado de presente. E acho que até hoje, continuo com o mesmo comportamento. Escolho falar sobre assuntos aleatórios para escapar e me distrair do que está acontecendo ao meu redor ou do que estou sentindo. Mas para minha infelicidade, aquela distração ia durar pouco, porque ao final da missa, minha prima estava esperando todos os convidados para receber abraços e algumas palavras de consolo. E acho que aquele momento me marcou de forma tão intensa, que de alguma maneira consegui gravá-lo até hoje em minha mente, e de forma extremamente nítida.

Minha prima chorando copiosamente e entregando na mão de cada pessoa uma fotinho de sua filha. Lembro que quando aquela foto foi entregue nas minhas mãos, e pude rever aqueles olhinhos grandes e azuis da menininha que brincava comigo de boneca, mas que não estava mais ali no mesmo plano que eu, senti algo muito estranho em meu peito. Uma sensação que nunca tinha sentido até então. E por uns minutos fiquei ali parada. Enquanto meus pais conversavam com meus outros tios, eu tentava lidar com aquele sentimento novo e ruim, que tinha acabado de descobrir.

Mas em algum momento, e por algum motivo, me vi correndo até o carro dos meus pais, fechando a porta e soltando o choro que estava segurando por todo aquele tempo. Coitados dos meus pais, que sem entenderem nada, tentavam me consolar pelo motivo errado. Achavam que sua filha estava só cansada e queria embora. Mal sabiam eles que eu estava sentindo ali, pela primeira vez, a dor de uma despedida. E mal sabia eu, também, que aquela seria a primeira de muitas despedidas dolorosas que a vida ainda estava planejando para mim.

Marina Lopes

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20 anos, Curitiba-PR. Uma estudante de jornalismo que busca seu sentido para a vida por meio da escrita.

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