Um desabafo sobre o guarda-chuva

Não é possível que só eu me incomode com esse desconfortável e antiquado artefato. Não é possível que só eu prefira chegar molhado ao meu destino. Não é possível que só eu perceba o quão distante da nossa realidade tecnológica estão os guardas-chuvas. Não é possível que só eu não saiba como escrever guarda-chuva no plural.

Desapontado, contudo não surpreso

Verdade seja dita: esse trambolho não condiz com o nosso cotidiano. Em pleno 2018, nos idos do século XXI, no auge da geração internet, nós somos obrigados a conviver com a inconveniência de levar conosco essa infame geringonça. Jesus amado, essa birosca foi inventada há sei lá quantos séculos e até hoje não funciona. — Por meio de uma breve pesquisa (leia: 10 segundos na wikipedia), descobri que há relatos de guarda-chuvas há mais de 3400 zenquilhões de anos, provavelmente inventados por dinossauros — É sabido por todos que os guardas-chuva são tão eficientes contra a chuva quanto palitos-des-dentes (pluraus não são meu forte) são eficientes para mexer uma xícara de café (tente) e, aparentemente, a sociedade está de boa com isso. Até tu, da Vinci? Francamente, como deixaste o guarda-chuva passar intacto e sobreviver ao período da idade média?

Sem contar que o nome foi obviamente atribuído equivocadamente. Como assim "guardar" a chuva? Ah não, comigo não, eu me recuso! E piora: sempre tem um infeliz indivíduo que desfila com tal arma perfuro-cortante sem a habilidade necessária para não desferir golpes contra os globos oculares alheios. Esse mesmo infeliz esquece que não precisa usar o guarda-chuva em áreas cobertas e bloqueiam o nosso caminho nos obrigando a ziguezaguear para driblá-los. Por último, porém não menos importante, é difícil mandar um estilo fashion e galanteador portando o indigno aparato. Diante da escassez de alternativas, invariavelmente concluo: encharcarei-me com a chuva.

Dizer basta é preciso!

O que é necessário ser feito para que haja um choque de realidade? Para quem devo reportar minha insatisfação e aliviar meu peito através de um grito de liberdade? Até quando, nós cidadãos de bem, enquanto inocentes, seremos condenados a pagar pela incompetência científica? Sinceramente, estou realmente decepcionado com a humanidade.

É com certo grau de desapontamento que escrevo este texto, confesso. Não sei bem o que pretendo atingir com isso. Pode ser que eu nutra a esperança de angariar mais revoltos como eu e, talvez, alcançar as autoridades irresponsáveis a fim de sensibilizá-los. Ou talvez, tudo que eu queira seja estimular a comunidade tecnológica. Ou talvez eu só precise mesmo desabafar. Mas não, não me darei por vencido.

Cientistas do mundo todo, agi vós.

Eu acredito! Vocês já pisaram na lua, vocês já enviaram sondas para além do nosso sistema solar, vocês até já provaram que a Torre Eiffel aparenta ser significantemente menor ao inclinar a nossa cabeça sutilmente para a esquerda. Não tem como um de vocês se dedicar um pouquinho para elaborar uns guarda-chuvas 2.0? É pedir demais?

Que me desculpem as empresas fabricantes de guardas-chuva e seu famigerado carro-chefe, aos quais o meu mais profundo asco, mas inovar é essencial.


Veja a réplica do guarda-chuva aqui.