qual o valor do que sei fazer?

eis aqui um ~currículo~ um tanto estranho.

nos currículos por aí, sempre me vem a mesma sensação: a construção de um personagem cuja existência é relativa.

(a palavra currículo já não parece superada?)

o quanto listar formações acadêmicas, cursos e aperfeiçoamentos tem relação real, direta e sem atalhos com a pessoa que se vai ser, que se apresenta no cotidiano daquela atividade? quanto?
em outras palavras (ou noutra pergunta, porque não é o que o conhecimento faz com a gente, mas…)… o que a gente faz com o conhecimento que tem (ou que os certificados dizem que temos)?

e para que >montar< um currículo? pra contar quem somos (oi?)… não, péra. para provar o quanto somos bons (oi?) ou estamos preparados …(preparados para quê?)…
pra conseguir um emprego, um trabalho, um bico, chame do que quiser aquele monte de responsabilidades / expectativas / frustrações / procrastinações / (ufa, até que enfim) realizações que toma forma em troca de grana, por necessidade básica (precisamos existir nesse mundo que está construído aí fora. e existir = comer, e comer custa reais) e/ou egóica (buscamos ser ~alguém~nesse mundo que está construído aí fora. precisamos?)

monta-se um currículo para convencer.

montar. ênfase aqui.
é uma construção. 
mas, aqui, eu vou me DESconstruir.
farei o anti-currículo.

eu entendo a construção, ok? eu me construí também (só podemos desconstruir ou que foi construído, certo?).

só que construção exige reparos. manutenção. rebocos, pintura sobre pintura, puxadinhos, reformas. e isso requer energia, tempo, uma vida.
energia que me escapa, escorre, drena.

(como vocês aí, que seguem se construindo, tão convictos, conseguem?)

por mais de 30 anos segui me construindo, do modo como entendi que podia, nada além. na prática, porém, naquele cotidiano de que falo ali em cima, sempre me senti acompanhada pelo desejo da desconstrução. desejo não, força. o impulso na direção contrária do que os cursos e as experiências chancelavam.
a energia que deveria ser usada para construir, como fazem as pessoas todas, estava em mim muito mais evidente na vontade de desconstruir.

no cotidiano, no amontoado de ações e direções que tomo, eu desvio da construção, não moro nela, não me sinto confortável nela, preciso olhar à distância, como quem prefere sentar na grama do jardim, perto do portão, bem perto, podendo sair por ali a qualquer momento e, uma vez na rua, não ser ninguém, invisível. quem somos sem uma profissão ou uma atividade remunerada? quem somos sem crachá, sem aquele aposto explicativo depois da vírgula: Loraine Castro da Luz, XXXXX.

XXXXX?
xis xis xis xis xis

então, me percebo precisando encontrar valor (sentido?) nessa desconstrução.
me ajuda?

me formei em Comunicação Social/Jornalismo em 1998.
entrei na UFRGS em 1994 — foram 11 anos me preparando para isso, desde a primeira série, num singelo colégio público de bairro. Saudade desse tempo sem questionamentos: a seta apontava para lá, estudar, era isso que eu tinha de fazer, e a vida tinha um sentido(?). Céus, que saudade de me sentir assim, ajustada no todo que funciona. Tudo construção, faz de conta, teatro, hoje eu sei, mas na época eu não sabia, e essa ignorância me fazia seguir em paz.

fiz tudo ~aparentemente~ direitinho, como manda a cartilha-do-mundo-dos-grandes.
veio a formatura e o primeiro cara-a-cara com esse impulso desconstrutor, essa minha natureza(?) do contra.

eu não estava feliz com a formatura — com um monte de coisa, mas a formatura foi o bode expiatório da vez.
não me sentia realizada. estava debaixo da soleira da porta do mundo-dos-grandes e estanquei. porta aparentemente aberta e eu parei.

me empurraram pra dentro. desde 1995 eu já trabalhava numa grande empresa do mercado de comunicação. uau. trabalhava espartanamente — não por ~culpa~da empresa, ainda que se pudesse pensar assim, mas pelo meu jeito de operar mesmo. só olhava para as obrigações e as responsabilidades, nunca para os lados, onde os outros pareciam encontrar alguma diversão (mais que isso, algum sentido). eu só via deveres. 
todos os dias. 
eu continuava a mesma dos tempos do colégio. um dia depois do outro, uma matéria/tarefa depois da outra, sem questionar, sem desejar, sem sonhar, sem um plano de carreira — seja lá o que isso possa ser hoje, poderia ter sido ontem ou será amanhã, nesse mise-en-scène adulto, dos grandes, tão cheio de certezas onde só vejo (des)construções.

empurrada pra dentro do mundo-dos-grandes…
o mundo-dos-grandes parece um enorme salão onde se desenrola uma festa (?) ininterrupta. salão lindamente decorado, luzes, música, sorrisos mas sempre é possível encontrar alguém, de tempos em tempos, olhando no relógio, pra ver quanto tempo falta ainda para terminar, ou olhando pela janela, se imaginando mais feliz fora. 
de qlq modo, o mundo-dos-grandes parecia ser o lugar pra onde eu queria ir, ou eu devia ir, simplesmente porque a minha idade cronológica e os meus certificados de conclusão apontavam pra lá, então, tratei de achar o que fazer. E quando não achava, me davam o que fazer. E eu fazia. E quando não me davam o que fazer, eu inventava. Porque o mundo-dos-grandes é o mundo do fazer. deus o livre sonhar com um mundo do não-fazer, ou se flagrar atrás de sua mesa de trabalho não-fazendo.

assim foi por 12 anos. mesmo contrariada, eu acho que aprendi alguma coisa nesses 12 anos de redação. fundamentalmente, provei que eu sabia cumprir ordens. provei que eu conseguia atender expectativas — porque escrever, ora bolas, escrever eu faço isso desde que aprendi, no singelo colegiozinho de bairro que já mencionei. menina de diários, garota de blogs que me lembro ser.
Provar… lembro claramente de quando, um dia, após ter feito um bom trabalho, um editor falou inadvertidamente: “tu não precisa provar mais nada para ninguém”. 
não havia solenidade na fala, era como se tivesse dito “vai chover amanhã”. só que aquilo ecoou dentro de mim. Então, tudo isso até aqui era um trabalho de provação? De provar algo? Acho que sim… e aí, o mais desconsertante: o que se faz quando não se precisa mais provar nada a ninguém? que vida se vive sem isso?

ainda que tivessem transcorrido tantos anos, eu resistia à ideia de me chamar de jornalista. coisamaisestranha, eu sei. a sensação interna era (e é) a de que nunca — por mais que eu tivesse feito, por maiores ou mais desafiantes experiências que eu pudesse ter passado — , nunca eu estava pronta. nunca me soltava completamente no salão. a coisa feita, realizada, sempre se esfarela atrás de mim, pulveriza no ar, estoura como bola de sabão. eu nunca lembro do que fiz para, de certa forma, sustentar o que estou fazendo, e toda e qualquer nova tarefa é sempre a maior e mais desafiante tarefa, é maior do que eu. 
eu começo do zero, quase sempre. um recomeço sem fim. que ao mesmo tempo é justificativa para levantar e ir (sabe-se lá para onde) e esgotamento para ficar, desistir.

a desconstrução é a minha base, o chão.

repórter, eu? “capaz. Fiz algumas coisinhas”. Repórter mesmo é o fulano.
editora, eu? “capaz. Cuido de alguns cadernos, finalizo algumas páginas por conta de… bem, estou por aqui, né… era a tarefa que me deram. Fiz”.

eu prefiro sempre não me assumir nada.

mas o cotidiano a que estava submetida, por força dele, posso dizer que aprendi a … e hoje posso:
escrever, tornar clara uma ideia no papel.
editar sua ideia escrita
ajudar a escrever cartas, emails, discursos, emails — e ou revisar tudo isso
hierarquizar informações de acordo com o público a que se destina
destrinchar um assunto, um tema e apresentá-lo de modo atraente,envolvente
planejar edições
escolher imagens apropriadas 
entrevistar pessoas
criar pautas, te dar ideias de conteúdo
colaborar com ideias que envolvam produção de conteúdo
corrigir textos, limpá-los do desnecessário

Continuei a me envolver com essas atividades — afinal, eu havia construído essa ação no mundo, por mais que resistisse a assumir isso como o meu lugar no mundo-dos-grandes, ou por mais que eu não me contentasse ou me realizasse com isso. Continuei mas sem o vínculo com uma empresa, com essa grande e robusta (à época) empresa de comunicação onde muitos gostariam de estar. 
em 2007, pedi as contas, e uma outra atividade ganhou espaço no meu cotidiano: o esporte.

desde criança gostava de suar, cogitei a faculdade de educação física na época do vestibular, aos 17 anos, mas acabou que ela veio somente anos depois. quando eu deveria estar me auto-proclamando jornalista por aí, eu decidi que queria estudar educação física. foram dois anos, cujas noites e as manhãs de sábado eram destinadas ao curso, depois de uma manhã e uma tarde na redação do jornal onde trabalhava.
não concluí o curso, porque as tarefas dessa ação-no-mundo-construída-chamada-de-jornalismo abocanhou minhas horas. 
meu impulso desconstrutor deve ter tido um peso aí: foram dois anos me preparando para ser educadora física sem ter certeza de que essa não era apenas mais uma construção (ou deveria dizer distração?) em cima de mim mesma (era né?). 
ainda assim, não dá para contrariar os fatos: aprendi algumas coisas nas dezenas de cadeiras estudadas ao longo desses quatro semestres, meio curso — afinal, eu fui uma boa aluna, estudiosa da teoria (anatomia, bioquímica, cinesiologia…) e dedicada e disciplinada nas práticas.

essa dedicação e disciplina ficaram mais evidentes a partir de 2007, quando me envolvi com uma equipe de treinamento esportivo que estava nascendo em Porto Alegre. De modo pioneiro no RS, o foco era triathlon. Eu fui umas das primeiras mulheres a treinar triathlon nessa equipe. E no RS havia mesmo poucas, não que já não tive tido, mas essa modalidade não era lá muito bombada como vem sendo hoje (hoje, essa mesma equipe — já bem maior e consolidada — tem muitas meninas/mulheres treinando).

a rua era o meu lugar, voando as tranças por aí, de bicicleta e correndo (não sem antes nadar também). isso não era um trabalho, não era remunerada, mas ocupava muito do meu dia — e porque eu gastava meu dia numa atividade que não pagava minhas contas (só fazia novas), eu me sentia uma ~vagabunda~, um tanto culpada mas também enebriada: o treinamento regular nos empodera.
Treinos todos os dias, competições… amadoras, claro, mas competições. Se eu era atleta? Diziam que sim. Se eu me sentia e me auto-proclamava atleta amadora? Claro que não. 
eu só funciono na desconstrução, lembra? Me ocupar profundamente com algo, e ainda assim não achar que aquele algo sou eu, me define; ainda assim sentir que nunca cheguei lá — mas o que é chegar lá? Empoderamento meio realeza britânica, esse meu: tá lá, mas né…

por conta dessa experiência toda com a atividade física — independentemente de eu me achar isso ou aquilo — , e sobretudo porque me sinto confortável em atividades físicas, acabou que posso fazer o seguinte:
te acompanhar em caminhadas, corridas, pedaladas. isso. acompanhar, apenas uma companhia. E, de quebra, motivar a fazer. não, não de modo profissional como um educador físico, mas como um personal motivator tabajara. pra você não fazer sozinho/sozinha. porque eu conheço muita gente que não faz porque não quer estar só. a auto-motivação é uma coisa difícil mesmo — já li autores que defendem, inclusive, que a auto-motivação não existe. existeo vínculo com alguém (ou com quem queremos ser), companheiro de treino, ou treinador, e isso faz a coisa acontecer. então, podemos tentar esse vinculo, essa associação, em que eu, sempre muito confortável com o esforço que a atividade física pressupõe, sou tua motivação — fundamental na criação e MANUTENÇÃO (a regularidade é o mais importante) desse momento vem-suor, um apoio para o hábito existir na sua vida. E conversando sobre esse universo caminhante-corredor-pedalante, da vestimenta às oportunidades meditativas e relaxantes que mexer o corpo proporciona. parceria para suar.

somente algum tempo depois me dei conta que minha relação com a prática esportiva sempre foi meditativa, no sentido de sair do redemoinho dos pensamentos, sair da superfície, com suas janelas e portas abertas para o mundo exterior, e tchibuuuummm, mergulhar em mim.
desde bem jovem, me parece que sempre usei a prática de qualquer coisa física (com suor) como uma compensação às horas dedicadas à mente, ao pensar (no colégio ou fora dele, com temas de aula, no trabalho ou, em meus diários e agendas, com rasas questões ~filosóficas~.).

mexer o corpo era uma necessidade orgânica, visceral. com o tempo, não só veio a percepção disso como a capacidade de usar isso ao meu favor no sentido de aprimorar o treinamento. nunca me imaginei correndo 10km, 15km ou 21km… nunca me imaginei pedalando 40, 60, 80km… nunca, nunquinha acreditaria, se me dissessem, que eu praticaria triathlon em algum momento da vida. 
e creio que isso só foi possível por causa dessa tendência, essa vontade de sair da mente, de me desidentificar quando ela dizia “ tah difícil, tá doendo, vc não vai conseguir”. alguma parte em mim confiava no meu corpo. e essa parte me devolvia a sensação de estar viva, como um bicho. sentir tanto o corpo, mas tanto que a mente e todas as suas vozes ficavam pequenas, sem importância. Eu só tinha de respirar e era suficiente, era bom.
minha motivação para o treino era uma coisa vinda das vísceras mesmo. nunca foi competitiva. não gostava de provas. gostava de treino.

eu e eu. eu, eu mesma e minha respiração intermediando tudo. horas assim.

parece até yoga, né? pois então. 
depois que comecei a praticar yoga, percebi que, como ~atleta~sempre tive uma pegada yogi. eu queria o treino pela possibilidade que ele me dava de encontrar uma EU para além do que minha mente dizia.

então passei a fazer yoga, praticar como — tempos depois percebi — como uma ~atleta~. É que o yoga entrou na minha vida quando o treinos de triathlon estavam saindo. Eu precisava colocar algo ali naquele buraco que estava se abrindo. E era um senhor buraco.

passei a ler sobre yoga. passei a sentir na pele muitas coisas que eu lia. e me encantei. decidi estudar yoga para me tornar professora de yoga. desde então, lá se vão uns seis anos. sempre me preparando e, claro, nunca achando que cheguei lá. usando meu dinheiro, meu tempo para a construção de algo (ser prof) mas sem desligar o botão da desconstrução… não consigo me apresentar como prof. é pesado. me sinto uma farsa. por mais cursos que faça, por mais experiências com alunos que eu esteja tendo… a auto-proclamação segura e convicta não vem.

mas por conta de todo esse tempo em contato com o yoga, eu posso…
guiar uma prática de yoga
te dizer por onde começar
te explicar a importância da respiração
te conduzir passo a passo na montagem dos principais asanas
vocalizar mantras
conversar sobre alguns textos sagrados…
explicar por que yoga não se resume a fazer posturas
mostrar pranayamas e suas indicações
o que fazer quando sentir agitação demais; o que fazer quando sentir prostração demais

e, sobretudo, também podemos refletir sobre a normose
Tem um grande professor de yoga, já falecido, prof Hermógenes — na realidade, mais do que um professor, uma das grandes referências brasileiras na filosofia yogi — , que dizia: “Deus me livre de ser normal”. 
Há uma série de reflexões que o yoga convida a fazer e, para muitos que passam a estudar isso e tentar trazer pra vida real, é inevitável a clara sensação de que nos tornamos ~anormais~. E, olha, não é fácil ser anormal. O ponto é que, uma vez dado o passo para a linha do lado de lá, vendo a dita normalidade de fora, poucos conseguem voltar. ser normal é muito confortável — mas ser normal numa normalidade que nos esvazia é constrangedor.
 tão confortável que desconforta.

eu poderia citar aqui alguns exemplos de toxicidade da normose em “ setores” diferentes, mas vou escolher apenas um: a alimentação. Na minha modesta opinião e baseada na minha caminhada pessoal, a mudança dos hábitos alimentares é, depois da prática no tapetinho, a coisa mais transformadora que se pode experimentar — a nível pessoal e principalmente macro, social. Eu arrisco dizer que muitos dos ditos problemas sociais estão alicerçados em hábitos alimentares condicionados e normóticos. o modo como comumente nos relacionamentos com a alimentação é uma prisão, uma roda de compensações que não só nos mantém anestesiados, distantes de si e entre si, como vem criando ou apoiando muitas doenças — é só olhar em volta.

não foi o yoga que instigou em mim o foco no alimentação, eu já tinha um tanto disso desde muito jovem. empiricamente, fiz significativas mudanças (para melhor, eu acho) na minha vida desde adolescente, à revelia de toda a minha família. Sou meio ~estranha~, para eles. Mas, como diz Hermógenes, Deus me livre de ser normal.

são, portanto, pelo menos 20 anos acumulando experiências, olhares, pesquisas, (auto)observações no que se refere à relação que tenho com o alimento. empiricamente, já disse. graças ao yoga, esse caminho tem uma direção ou justificativa: lucidez, clareza mental, harmonia interna — qualidades internas que podem ser fortalecidas (ou enfraquecidas) pelo que escolhemos comer. não é por acaso que o ayurveda, ciência irmã do yoga, está fortemente baseada na alimentação (eu deveria dizer digestão). uma alimentação sátvica produz efeitos positivos no corpo e na mente. falta de flexibilidade? seu problema pode estar na sua alimentação, sabia? o ponto é que os “normais” estão tão, mas tão acostumados ao desconforto que sequer sabem da existência de um existir mais prazeroso, leve e fluido em seus próprios corpos. 
dito isso, posso te ajudar a aprender algumas receitas vegetarianas, veganas…vivas. Na verdade, tão simples (precisamos só de algum planejamento e de um liquidificador), que são veggies. Elas não começam veggies, elas começam simples, de modo a restaurar nossa relação com o sabor, a textura e o aroma de cada coisa que a natureza nos dá.
Compartilho o que é possível fazer com tantos produtos naturebas que surgem, com criatividade, liberdade, autonomia e responsabilidade, questionando a normose (pela qual a indústria alimentícia decide o que você ingere, já notou?). Leites vegetais, queijos e pastinhas, lanches e pequenos almoços, shakes…são delicinhas que posso mostrar como faz no conforto do seu lar, observando sempre pelo menos dois aspectos: saciedade e digestão.

só não posso garantir que yoga e cuidados alimentares vão resolver todos os problemas. muito pelo contrário. acho que yoga e o auto-cuidado com aquilo que colocamos pra dentro da gente (não só pela boca) são reveladores de coisas — e nem sempre coisas legais de se contar por aí, no mundo-normal-dos-grandes.
revelam pontos cegos, quartinhos escuros, buraquinhos negros, problemas que a gente nem sabia que tinha. como esse impulso à desconstrução que eu tenho. 
não sei se eu teria me dado conta desse padrão não fosse o exercício contínuo da auto-observação e da consciência de certos condicionamentos que a prática no tapetinho proporciona. 
há um preço nisso tudo: autorresponsabilidade. total. por tudo. por quem somos, por como nos comportamentos, pelo que nos acontece. 
por conta desse implacável espelho que a prática é…

… posso compartilhar contigo muitos insights.
e porque ciente de minhas infinitas limitações, posso te escutar.
apenas escutar o que carrega aí no peito, na mente… 
sou uma boa ouvinte, sempre me disseram meus amigos — e o yoga, o tapetinho, o cenário todo e o clima por onde escorre a prática reforçam essa minha capacidade. Escutar sem interromper. Escutar sem comparar. Escutar sem falar de mim, o que tiraria o outro do seu próprio caminho/raciocínio. Escutar sem medo dos silêncios do outro, das pausas abissais que acontecem quando não encontramos palavras para explicar o que se sente.

Nesse momento, não achar… melhor, não acreditar que sou alguém ou alguma coisa, ajuda bastante. 
minha desconstrução, minha falta de crachá ou de CNPJ, de aposto explicativo depois do nome, enfim, minha invisibilidade no mundo-dos-grandes toma a forma que o outro der.

  • adendos
    estes textos têm certa afinidade com o que sinto e tentei expressar:
  1. https://papodehomem.com.br/prisao-eu/ (esse Alex Castro às vezes me dá um pouco de medo)
  2. http://projetodraft.com/nao-da-para-comprar-a-sabedoria-ela-nao-vem-com-nota-fiscal-e-nao-da-para-reclamar-tem-que-praticar/ 
    (que bálsamo ler esse texto, e que alegria reencontrar o Vergara depois de mais de 10 anos… me apaixonei por ele — platonicamente, claro — quando ele editava a Vida Simples, de quem fui fã absoluta lá em 2005… ah, essa revista ❤…)