Saciados e de alma leve

Carma… luz… espiritualidade… meditação… A conversa é por aí. Opa, mas o curso não era sobre comida? Onde estão as informações sobre os carboidratos, as proteínas, as gorduras e as (quase sempre) temidas calorias? Nada se ouviu a respeito disso. Esqueça também os ingredientes mais tradicionais na mesa dos brasileiros, tipo arroz-feijão-carne. E principalmente: dê adeus ao fogão, que quase não foi usado.

Estamos em um encontro-jantar sobre alimento vivo e espiritualidade, com a terapeuta holística Márcia Unfer e a professora de cabala Adriana Finkelstein. A Cabala da Comida foi muito mais do que um curso realizado na Healthy Station do Café 362 Comendador Caminha — endereço, em Porto Alegre (RS), com farto cardápio de salgados e doces (muitos deles vivos) sem ingredientes de origem animal. Menu farto, original, nutritivo e saboroso — sem falar nos caprichados cafés com leite vegetal, cheios de personalidade, assinados pela competente barista JoJo.
O encontro-jantar foi uma celebração, como todas as nossas refeições deveriam ser — e que, na correria do cotidiano, frequentemente não são. E o pior: nos acostumamos a esse frequente não-ser. O curso nos lembrou disso. Lembrou, principalmente na prática, que é possível fazer diferente. E que vale a pena.
– A união da comida com uma boa conversa, bom humor e lideranças positivas aproxima as pessoas… Rir faz as pessoas se aproximarem — disse Adriana, após a experiência, naquela agradável noite de uma quinta-feira de outubro.

Márcia e Adriana (D)

O comentário explicava uma alquimia para além de panelas, receitas e degustações: de um início um tanto inibido, cada um na sua, o grupo presente parecia formado por velhos amigos no final da noite. Se os participantes entraram silenciosos e observantes, deixaram a Healthy Station trocando receitas, abraços e sorrisos.
– A harmonia do encontro, o astral foi o que mais me marcou. Sou nova nessa área de alimentação viva, tenho aprendido bastante com a Márcia… só sei que saí do encontro com uma sensação boa, leve, depois de um dia de trabalho — contou Antonella Semeraro, 52 anos.
Mágica da alimentação viva? Se depender da energia e do envolvimento de Márcia Unfer com cursos e palestras, certo que sim. E a lógica dessa culinária encontrou sim respaldo nos conhecimentos sobre cabala compartilhados por Adriana.

A alimentação viva

A espontaneidade e a empolgação de Márcia com a alimentação viva logo ajudaram a “quebrar o gelo”. Primeiramente, alguns ingredientes e, depois, pratos de um colorido vibrante passavam de mão em mão entre os presentes.
– Cheirem! Toquem! Olhem que lindos! — pedia Márcia, sobre os fermentados, as folhas de beterraba, o feno grego e a lentilha vermelha germinados.
A alimentação viva é muito isso: o resgate de uma conexão com o alimento, que envolve não só o tocar, o cheirar, o sentir, mas reconhecer ali uma oportunidade de comunhão. Vida promove vida. Não faz sentido procurar nutrição em algo morto — eis uma das lógicas desse tipo de culinária: toda vez que cozinhamos um alimento, ele perde e nós perdemos. Sobrecarregamos nossos sistemas fisiológicos e sutis, em vez de impulsioná-los a viverem mais.
– A alimentação viva nos devolve disposição, alegria, criatividade — garante Márcia, entre uma risada e outra… e as risadas começam a surgir também entre os participantes, que se divertiam com alguns esquecimentos de Márcia na hora de seguir o receituário (que todos receberam impresso). Mesmo “errando”, ficava delicioso — tanto a versão oficial, degustada por todos e previamente elaborada por Márcia e sua fiel escudeira, Claudete, quanto a feita na hora ali, no momento “como fazer” da noite.
A psicóloga Debora Gleiser, 57 anos, participante do curso, ficou satisfeita e se disse com muita energia após a experiência:
– A combinação de temperos, a utilização dos germinados foi incrível. Fiquei muito bem impressionada.
As possibilidades criativas é uma das vantagens que Márcia mais cita em seus cursos.
– A culinária viva é rápida, fácil, econômica, sustentável e limpa — costuma dizer ela, abraçada ao seu liquidificador, fundamental na cozinha de quem opta pela cozinha "raw".
Márcia se tornou vegetariana após assistir ao documentário A Carne é Fraca, de 2005. Um curso com o Dr. Alberto Peribanez Gonzalez também está na origem de seu envolvimento com os alimento vivos — e, com eles, além de mais e mais cursos, veio o desejo de compartilhar a experiência e o que aprendeu. Márcia já tinha uma trajetória empreendedora (sua família criou em meados dos anos 1990 a Totosinho, um delivery de mini cachorro-quente com muito sucesso até hoje… veja só, as voltas que o mundo dá!).
– Sempre fui empresária, então, fazer isto em forma de cursos, palestras e a criação do livro aconteceram naturalmente — comenta, citando o Cozinha Viva, de sua autoria (editora Imprensa Livre, 2014).

sobremesa servida no jantar cabalístico: musse de manga + spirulina

O médico Peribanez Gonzalez é um dos principais nomes, no país, ligados à alimentação viva. Seu livro Lugar de Médico É na Cozinha — Cura e Saúde pela Alimentação Viva (editora Alaúde), publicado em 2006, se tornou um best-seller. Outras experiências dão conta de que esse tipo de culinária não é só um modismo recente. O Terrapia, ligado à Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp) do Rio de Janeiro e coordenado pela médica e psiquiatra Maria Luiza Branco, por exemplo, foi fundado em 1997 e é hoje uma das referências do chamado movimento vitalista — que só cresce no país, com inúmeras oficinas e chefs despontando.
O crudivorismo e a alimentação viva ou alcalina (há diferenças, sim: os brotos e germinados estão mais na alimentação viva) enfatizam verduras e legumes frescos e, de preferência, orgânicos. Os alimentos são consumidos in natura, ou “cruzinhados” por meio de técnicas naturais, podem ser temperados e no máximo amornados até no máximo 47ºC, a fim de preservar enzimas. Não entra nada de origem animal. É uma nutrição que promete alcalinizar o sangue (condição ideal para a saúde prosperar).
– A cada curso, minha certeza é maior de estar no caminho certo. A alegria de ver outras pessoas despertando para a consciência é indescritível! — garante Márcia.
Em outras palavras, a culinária viva propõe uma relação mais sutil e integralista com os alimentos (e com a natureza em geral).
– Precisamos entender quando estamos nos alimentando de luz ou não — resume ela.
Essa foi, aliás, a percepção mais forte de Luiz Arthur Carneiro, 33 anos, um dos participantes no curso. Ele, que tem vem estudando gastronomia e pretende seguir nessa área, completou:
– O curso reforçou em mim o respeito ao ritual de se alimentar. Porque o alimento reflete diretamente no meu estado de espírito e humor. Não nos alimentamos só de nutrientes, mas da vida contida ali.
Em sua caminhada por essa outra visão do alimento (para além de proteínas, carboidratos e calorias), Márcia Unfer encontrou no Café 362 um ambiente e os propósitos ideais. Aliados. Ali, todas as atenções para a água que bebemos. A cafeteria é uma iniciativa da loja @AcquaLiveSul, especializada na venda de modernos filtros que transformam a água comum, cheia de metais pesados e impurezas, em água alcalina ionizada.
Para a germinação/brotação de sementes, grãos e no preparo adequado de oleaginosas presentes na culinária viva, a água é fundamental. É uma alimentação que primeiro “desperta” o que se vai comer através do processo de demolhagem. Portanto, dispor de uma água alcalina, com qualidade, é muito importante.
– Somos feitos de água. A água harmoniza nossa relação com os alimentos — ensinou Adriana, em determinado momento do curso.
E já que lembramos da Adriana… como a cabala se encaixou em tudo isso? Adriana é pioneira no ensino dessa filosofia no Rio Grande do Sul e está à frente da Escola de Kabbalah, com palestras, cursos, oficinas, seminários e atendimentos individuais.

A cabala e a alimentação

Com alimento cozido ou não, germinado ou não, de origem animal ou não, a cabala coloca, sim, a comida em um lugar de destaque no cotidiano, para além das demandas fisiológicas — tanto quanto a culinária viva.
Para a cabala e segundo Adriana, somos pedaços de uma alma única “espatifada em diferentes mundos”. Temos fome de respostas para angústias do tipo 'quem eu sou?', 'de onde eu vim?', 'para que?'… 'qual o meu propósito e de tudo o que me cerca?'. Muito dessa ânsia existencial é o instinto de voltar àquela unidade espatifada, à totalidade e à plenitude.
A cabala, por meio de muito estudo e intensa prática de meditação, se ocupa dessa fome de entendimento do mundo, rumo a percepções sutis. O caminho da cabala é espiritual. E a alimentação tem papel importante.
– Todos nós temos um “tikkun”, um processo de correção para fazer na vida. E uma das formas é por meio da comida, do que escolhemos comer. Quando comemos o alimento adequado, elevamos a alma, a luz daquele alimento… Sempre que se reduz a escuridão, fazendo algo bom para nós e/ou para o outro, isso é reduzir nosso carma — explica Adriana.
Na medida em que se avança no estudo e nas práticas de meditação da cabala, a consciência se amplia, nossos desejos e necessidades se refinam.
– Se você percebe que o seu corpo começa a pedir outros alimentos, a sua consciência está buscando a luz daquele alimento — comenta ela. — Temos níveis diferentes de consciência. Tem a instintiva, ligada ao físico e daí a nutrição de carboidratos, proteínas… e a da alma, que se nutre da luz, da vibração do alimento. Precisamos da luz dos alimentos.
Segundo Adriana, na cabala todo alimento é vivo. Ao comer, no entanto, não o matamos. Ele se transforma. Por isso, o que se come (como foi feito, por quem, a procedência etc) e principalmente a forma como nos alimentamos (o contexto) são tão importantes.
– Não podemos comer de forma reativa. É preciso vencer a ideia de que o alimento vai preencher vazios emocionais — alertou.
Naquela noite, antes do jantar, Adriana conduziu um breve exercício de aquietamento, meditativo, incentivando que façamos isso antes das refeições para ancorar a presença, a consciência na forma como vamos nos nutrir. Comer é sagrado. Kabbalah quer dizer recebimento.
Essa parada estratégica, que na cabala pode vir com orações, reverencia o alimento, abre o caminho para a transformação (e não morte), para a relação íntima que vai se dar ali. Comer é um ato de intimidade com o alimento. A oração é como pedir permissão e oferecer de forma ritualística o alimento à divindade que está em nós (somos uma única alma espatifada, lembra?, desejando a união).
– O poder está em nós — lembrou.
Segundo Adriana, cada indivíduo tem uma relação particular com os alimentos. É uma busca única, individual, na qual é imprescindível a auto-observação, porque o alimento tem sim a capacidade de influenciar nossas emoções (e por consequência aquilo que percebemos como realidade).
Então, atualmente, em meio a tantas informações sobre o que é e não é saudável… o que é certo ou errado nas escolhas alimentares, como devemos agir?
– Simples: livre-arbítrio. Você tem o poder de escolha. Os alimentos não estão atacando… É o nosso impulso que ataca os alimentos. Sim, comer é emocional e vai continuar sendo, mas com consciência — conclui ela.

O menu do jantar cabalístico:
Água alcalina AcquaLiveSul saborizada naturalmente (beterraba e óleo essencial) e Rejuvelac (bebida fermentada); mix de roxos com pêra, brotos de alfafa e lentilhas germinadas, nhoque de berinjela ao molho cremoso, gazpacho com castanhas do Pará e mousse de manga com spirulina.

Like what you read? Give Loraine Luz a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.