Falta de representatividade de negras e negros reforça o racismo no país

Cento e vinte e seis anos após a tardia abolição da escravatura, a representação dos negros na mídia e na propaganda brasileira ainda é bastante falha. Políticas de combate ao racismo buscam promover a igualdade racial, e o Movimento Negro luta por visibilidade e pela desconstrução da falácia, muitas vezes midiatizada, de que não há racismo no país.

Conforme o publicitário, pesquisador e criador do projeto joinvilense “Negras Memórias”, Felipe Cardoso, a propaganda promove a desinformação ao publicizar estereótipos preconceituosos. “Na publicidade, o negro normalmente é tido como invisível e inferior. Quando ganha uma certa visibilidade, é sempre para ocupar um papel marginalizado. Ele quase nunca é o protagonista”, analisa. Segundo uma pesquisa realizada em 2012 pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, apesar de a representação dos negros na publicidade ter aumentado nos últimos 20 anos, ainda são associados a clichês negativos.

Cardoso ressalta que falta criatividade dos publicitários ao persistir nos estereótipos já existentes na sociedade. Para ele, as faculdades também têm responsabilidade quando se omitem em abordar esses temas e não estimulam os estudantes a pensarem sobre a função social da profissão. “O curso de Publicidade foge das reflexões em torno das pesquisas acadêmicas. Esquecem-se do social ao lado da palavra comunicação — muitos cursos recebem o nome de Comunicação Social — Publicidade e Propaganda. É muito falado na importância dos publicitários abrirem a mente para o novo. Mas, na prática, aprendemos somente nomes técnicos diferentes, pois o padrão se mantém inalterado”, critica.

Quando a publicidade estabelece uma verdade e critica quem a denuncia, cria-se um ciclo conservador segundo o publicitário. “Exemplo disso foi a campanha ‘Somos todos macacos’. Apropriaram-se de forma racista da luta contra o racismo e, quando foram criticados pelo Movimento Negro, apenas fizeram uma nota dizendo que haviam sido incompreendidos por quem os criticou”, argumenta.

E os jornais?

Segundo Felipe Cardoso, a mídia local joinvilense falha ao agir pela manutenção do status quo em vez de dar visibilidade ao movimento negro da cidade. “Todos os anos os jornais fazem cobertura da Festa da Flores, do Stammtisch da Visconde e até da Oktoberfest, que nem acontece na cidade. Mas não vemos a mesma mobilização em cobrir, por exemplo, a Semana da Consciência Negra, que promove várias atividades”, lamenta. Para ele, os meios de comunicação também são responsáveis pela propagação da ideia que defende a cultura germânica como a única tradicional da cidade. “Acredito que devem haver muitos fatores envolvidos desde a apuração do jornalista até a edição final. Mas, certamente, trata-se de uma escolha editorial em evitar tocar em certos assuntos, como o racismo, pois a cidade ainda tem a mente fechada. É preciso ter coragem”, diz Felipe.

Conforme o historiador, mestre em Antropologia Social pela UFSC e membro da Comissão Nacional da Verdade sobre Escravidão Negra — Seção Santa Catarina, Willian Luiz da Conceição, apesar de a representabilidade negra nas mídias brasileiras ter aumentado consideravelmente em razão de políticas públicas e da legislação vigente, estatisticamente o país continua a ser um país de aparthaid midiático e social. “Não é possível que o Brasil siga sendo representado como um país nórdico, como se não existíssemos ou fossemos uma minoria numérica”, afirma. O historiador, que também é pesquisador associado ao Núcleo de Estudos de Identidades e Relações Interétnicas (NUER/UFSC), ressalta que apesar dos negros representarem mais da metade da população total do país, ainda são invisibilizados nos meios de comunicação. “Quando muito, somos tidos como exóticos e ocupamos papéis inteiramente estereotipados.”

O pesquisador destaca o papel dos movimentos sociais, principalmente do Movimento Negro, que tem sido fundamental para que os casos de racismo sejam noticiados. Mas, segundo ele, na maioria das vezes a imprensa busca reforçar o mito de que no Brasil não há racismo. “O que tem ocorrido é a repetição de uma tradição na qual as vítimas têm sido constantemente culpabilizadas pelas situações que são expostas”, avalia.

Em agosto de 2013, o goleiro Aranha, do Santos, foi xingado de macaco por torcedores gremistas durante uma partida contra o Grêmio. Para Willian, apesar de alguns agressores terem sido identificados, com o passar do tempo acabaram sendo inocentados por causa de um movimento midiático de sensibilização que buscou normalizar e diminuir a ação racista. “Trataram como um caso motivado pelo ‘calor do momento’, como se a injúria racial não tivesse a intenção de expressar o que expressou. Tal tratamento é inaceitável que aconteça, pois abre brechas à impunidade e motiva que outros casos ocorram. A imprensa nacional tem feito um desserviço nesse assunto.”

Na infância

As crianças negras sofrem desde cedo com o racismo. Para Vanessa da Rosa, pedagoga, mestre em educação pela UFSC e membro do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial, a falta de representatividade dos negros em livros infantis, contos de fadas e filmes é extremamente prejudicial na construção da identidade e autoestima. “A criança cresce sem nunca ter visto uma princesa negra, um super-herói. Cresce sem referência, muitas vezes não gostando da sua própria cor e achando que o modelo branco europeu é o mais bonito”, observa. A pedagoga defende que é preciso investir na formação dos professores para que eles conheçam a história do negro no Brasil, valorize a temática e perceba a importância de trabalhá-la em sala de aula. “Não só pela formação dos negros, mas pela formação dos brancos, dos índios, dos pardos, enfim, pela formação do provo brasileiro.”

Cotas raciais e políticas de combate ao racismo

A falta de negros e negras na publicidade joinvilense é resultado de uma forte segmentação existente na cidade, lembra a pedagoga Vanessa Rosa. “Cultua-se suas tradições germânicas e invisibiliza o povo negro com o argumento de que Joinville tem um número reduzido de negros.”

Em virtude disso, para ela, as cotas raciais são uma política de ação afirmativa que têm o objetivo de promover a igualdade de oportunidades a quem historicamente foi discriminado. “Passamos por quase 400 anos de escravidão. O Brasil foi o último país a libertar os escravos e quando o fez, não lhes deu a menor assistência no sentido de trabalho, moradia e escolaridade”, recorda. A pesquisadora ressalta que a ausência dos negros nas universidades também é resultado da falta de oportunidade no acesso à educação.

Ela conta que a vida profissional dos negros sempre antecipou a estudantil, pois no período escravista não eram permitidos de estudar e, após a abolição, não havia escola para todos. “É a reparação de uma dívida histórica com o povo negro, que foi massacrado, humilhado, separado da família da forma mais vil possível. A escravidão no Brasil é considerada uma das maiores tragédias da humanidade, comparada somente ao nazismo.”

Segundo o historiador Willian Luiz da Conceição, as ações afirmativas são medidas temporárias importantes e têm tido verdadeiro impacto sob a democratização do ensino superior. “Os resultados práticos sobre o desempenho dos estudantes cotistas na maioria das universidades têm demonstrado que o problema é a falta de oportunidade.” Para ele, pessoas que costumam dizer que essas ações criam um apartheid social desconhecem que esse apartheid já existe na sociedade brasileira. “Essas políticas têm se esforçado para diminuir tal segregação. Infelizmente, também há pessoas mal-intencionadas ideologicamente e que não estão comprometidas com igualdade social e racial deste país e preferem manter os seus próprios privilégios.”

O pesquisador destaca que o racismo no Brasil é complexo de ser analisado porque há vários fatores expostos que agem em conjunto. Para ele, as escolas brasileiras têm falhado em promover o debate em torno das relações raciais. “Nós temos avançado na legislação. Prova disso é a lei que instituiu a obrigatoriedade do ensino da história da África e da cultura afro-brasileira nos currículos escolares.”

Mas ele atenta que os professores e a direção das escolas precisam compreender que esse é um tema central e que não deve ser desenvolvido somente na disciplina de história. “Quando há um professor negro na escola, a responsabilidade costuma ir somente para ele, como se essa problemática fosse somente dos negros. É responsabilidade de todos”, salienta.

Para reverter essa realidade, as Secretarias de Educação devem fomentar cursos de capacitação e formação dos professores, como ocorre atualmente em algumas universidades segundo Willian. “A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) têm realizado uma série de cursos com esse objetivo e já se encontram materiais didáticos capazes de colaborar com o professor em sala de aula.”

Governos devem promover a igualdade racial

Em 2009, na gestão do ex-prefeito Carlito Merss, foi criado o Comitê Gestor da Igualdade Racial com o objetivo de promover ações para resgatar e valorizar a história do negro em Joinville. “Foi nessa época que descobrimos os 14 negros escravos enterrados no Cemitério do Imigrante, que trouxemos o Ministro da Igualdade Racial, que promovíamos o Café das Negras Memórias na Estação da Memória, entre outras atividades”, conta Vanessa.

Para Willian Luiz da Conceição, o governo federal, assim como os estaduais e municipais, devem se esforçar para desenvolver políticas públicas que ampliem oportunidades à população negra. “É preciso que realizem programas sérios de combate a matança generalizada de jovens negros, em sua maioria, na periferia brasileira. Também é necessário mudar a lógica do combate às drogas. Hoje, o método de guerra contra às drogas têm mostrado falência e tem matado indiscriminadamente jovens negros, independente de estarem envolvidos com o tráfico”, finaliza.

Consciência Negra em Joinville

Em 2013, o prefeito Udo Döhler sancionou a lei municipal, proposta pelo vereador Dorval Pretti (PPS), que instituía na cidade de Joinville o feriado do Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro. Após duas ações protocoladas por diferentes entidades, entre elas a Associação Comercial Industrial Joinville (Acij) e a Câmara de Dirigentes Lojistas de Joinville (CDL), sob alegação de que o feriado geraria um prejuízo de mais de 10 milhões de reais, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina cancelou o feriado por meio de liminar.

Conforme o publicitário e criador do projeto “Negras Memórias”, Felipe Cardoso, a ação mostra como o racismo ainda é forte na cidade. “Se há feriados religiosos, ainda que toda a população joinvilense não seja cristã, porque implicar com o Dia da Consciência Negra? Dez milhões valem mais que todos os anos que os negros foram explorados e escravizados?”, questiona. Ele acredita que se o feriado fosse decretado, representaria uma vitória do movimento negro na cidade, o que não seria interessante para a classe empresarial da cidade. “Os movimentos sociais organizados são uma ameaça à elite.”

Segundo a educadora Vanessa da Rosa, ações como a Semana da Consciência Negra, que já ocorrem desde 2009, contribuem para a legitimação da presença do negro na cidade. “Acho de extrema importância que esteja, inclusive, no calendário das festas tradicionais. Aos poucos a população vai entendendo que o negro está presente em Joinville, que tem história e que tem uma cultura que precisa ser respeitada e valorizada.”

Matéria escrita para a disciplina de Jornalismo Impresso 1 e publicada* na Revista Eletrônica do Bom Jesus/Ielusc (Revi) em 19 de novembro de 2014 
*versão editada

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