Vestibular e desigualdade sob uma perspectiva pessoal - apenas

Minha mãe é camelô. Às vésperas do Enem passei no trabalho dela para ver como estavam as coisas. Fazia tempo que eu não dava as caras por lá.

Faltavam três horas para ela ir embora e eu resolvi ficar interagindo com a galera que trabalha na rua. Uma das pessoas que veio falar comigo era um homem de uns 50 anos de idade. Dos camelôs que habitavam o espaço, era o mais bem vestido. Camisa social surrada, mas bem passada, sapato também social e um cinto com uma fivela grande e brilhante. Tendo conhecimento de parte de meu engajamento político veio me perguntar o que eu achava das mudanças atuais do governo. Com a minha negativa ele partiu para uma postura de tentar me convencer dos benefícios da PEC 241. Quando argumentei dizendo que o que eles estavam fazendo iria prejudicar a saúde e a educação, ele disse apenas “Bom, mas estão fazendo algo”… Esse homem não é rico, não é empresário nem dono de coisa alguma. É apenas um camelô. Senti nele todo o reflexo da classe baixa que está sendo influenciada pela mídia. Senti nele esperança e frustração ao mesmo tempo. Alguém que queria acreditar num futuro melhor e se apoiou no que estavam falando que era certo. Com o tempo desisti do debate. Ele não queria ouvir alguém que trazia perspectivas tão pessimistas para tudo que ele confiava. Eu entendo isso.

Em seguida veio conversar comigo um jovem que tem mais ou menos a minha idade (tenho 23) e também é camelô. Começamos a falar do Enem e ele me fez seu relato sobre essa experiência. “Nunca mais faço o Enem. No dia em que fui fazer havia um cara que começou a comer algo. Eu estava morrendo de fome e não consegui me concentrar. Nunca mais faço essa prova.” A minha primeira reação foi igual a sua, leitor. Pensei “Como alguém pode desistir para sempre de uma prova tão importante por um motivo tão bobo?” Então comecei a pensar na minha própria experiência com vestibulares e relembrar de uma série de coisas.

Até o segunda ano do ensino médio, em 2009, eu não sabia o que era um vestibular. Conhecia a palavra, sabia que era algo que se fazia para entrar na faculdade, mas não tinha ideia dessa cultura de vestibular. Nunca tinha ouvido falar em Enem.

Um dia no Senai vi um cartaz na parede. Era um anúncio do vestibular do ITA e me lembro bem de ter um balão amarelo bem destacado sobre o fundo azul dizendo “Moradia e alimentação inclusos”. Meus olhos brilharam. Meus pais nunca teriam condições de me bancar em algum curso que fosse distante então ter moradia e alimentação garantidos era tudo que eu precisava. Além disso, novos ares.

Comecei a falas com as pessoas que conhecia sobre esses planos e todo mundo reagia da mesma forma. Faziam cara de choque “Você vai tentar o ITA? É muito difícil!” “Na escola que você estuda jamais vai conseguir.”

Com essas ideias na cabeça resolvi que valeria a pena investir todo meu salário de garota de 16 anos em uma escola particular. No terceiro ano do ensino médio consegui uma bolsa no objetivo e pagava R$400 na mensalidade. Lembrando que os R$ 400 de 2010 não são os R$ 400 de hoje, era muito dinheiro para quem cresceu no subúrbio da região metropolitana de São Paulo.

Os primeiros dias foram amedrontadores. Nas matérias, eu não fazia ideia do que eles estavam falando. Fiquei a beira de repetir. O sistema capitalista da escola permitia fazer provas substitutivas desde que se pagasse a mais e isso salvou meu pescoço. Com esse pequeno exemplo é possível ter ideia da diferença do ensino entre escola pública e particular. Todo mundo lá estava imerso até a cabeça pela cultura de vestibular. Viviam em função disso.

Estava muito nervosa no primeiro simulado que fui fazer. Cheguei na prova e qual foi a minha surpresa quando verifiquei que todas aquelas pessoas estavam com seus lanchinhos. Barras de cereais, biscoitos, chocolates, garrafas d’água. Meu primeiro pensamento foi de que seriam todos eliminados. Não pode levar nada na prova, não é? Esperei. Ninguém se manifestou. Realmente parecia ser uma regra da qual eu não tinha conhecimento. Aquilo me intimidou de tal maneira que tremia. Cada barulho de embalagem aberta me lembrava como todo o sistema tinha feito de tudo para que eu não estivesse ali.

Aproveitei o que pude do colégio particular, usufruí de cada monitoria e aula extra que era dada. Apesar de trabalhar em tempo integral, dei tudo de mim com o pouco tempo que restava. Aprendi o que era USP, Fuvest, Enem, Prouni e mais um monte de jargão que só quem prestou vestibular sabe. Desisti da ideia do ITA e comecei a me preparar para Fuvest. Na prova, passei para a segunda fase do curso de física e isso já era mais do que qualquer pessoa na minha família tinha conseguido. Todos ficaram empolgados. Não passei da segunda fase, mas foi o bastante para que acendesse uma fagulha em mim de que era possível mudar de vida.

No ano seguinte voltei a apostar tudo nos estudos, consegui uma bolsa no famoso cursinho Anglo. Ao invés de R$890 eu pagaria apenas R$590 por mês! Nessa época eu já estava craque em tudo que envolvesse vestibular.

Em paralelo a isso olhava as pessoas que deixei para trás. Todos os meus amigos da escola pública se afastaram. Em pouco tempo eu já não tinha mais jeito de falar com eles. Falávamos línguas diferentes. Conheci um outro mundo que era inacessível para todos eles. Alguns diriam que foi a meritocracia. Eu digo que tive sorte. Enquanto eu pagava R$590 num cursinho, tinha amigos em que a família era sustentada por R$140 fornecidos pelo Bolsa Família. Eu tive sorte de naquela época o trabalho dos meus pais na rua estar sendo lucrativo o bastante para eu não precisar ajudar em casa. Hoje com certeza não seria desse jeito.

Final do ano passei no vestibular. Em 2012 estudava na USP. Não vou falar agora sobre essa experiência, pois exige mais um textão. Só posso dizer que hoje, em 2016, estou prestando Enem mais uma vez. Acabei de voltar da prova e depois desses anos e anos estudando a considerei num nível muito elevado. Pessoalmente, consegui resolver grande parte da prova. Porém enquanto resolvia meus sentimentos de revolta com a educação pública de base no Brasil só aumentavam.

Minha irmã que é dois anos mais nova também estava fazendo a prova. Ela não teve a mesma sorte que eu em relação aos estudos. Permaneceu no ensino público até se formar e não teve condições de pagar uma faculdade em seguida. Enquanto eu resolvia a prova só conseguia pensar nela e em mais milhões de candidatos que não faziam ideia do que aquela prova estava falando. Em candidatos que se intimidaram com minha barra de cereal porque ninguém nunca os avisou daquilo. Em candidatos que não voltarão a prestar por julgar que aquele lugar não é para eles.

Sabemos que não existem vagas para todo mundo. Que grande porcentagem de quem prestou a prova não vai conseguir nada. São todos figurantes de um sistema que vai engrandecer aquele cara que cresceu treinado para o momento da prova. Ele vai pensar que foi mérito próprio e que a meritocracia funciona. De plano de fundo, milhões de pessoas que não tiveram condições nenhuma de saber resolver o Enem. Daqui a alguns meses saí uma notícia dizendo que as escolas particulares conseguiram os melhores rankings, então todo mundo vai olhar para os pobres alunos de escolas públicas e os culpar por serem preguiçosos, por não estudarem tanto quanto deviam. Serão culpados por não serem super-heróis.