Sobre xadrez e T-shirt

Olhar-se no espelho e conseguir enxergar a sua verdadeira expressão de gênero não é uma tarefa fácil, mas quando conseguimos chegar nesse patamar, mesmo que seja apenas uma vez, a felicidade nos invade de uma forma incomensurável que até aqueles que estão a nossa volta conseguem ver o quanto isso nos faz bem.

Expressão de gênero é a maneira pela qual conseguimos mostrar para o mundo uma parte de nosso universo interior. É com o auxílio de alguns elementos, como as roupas que vestimos, o corte de cabelo que usamos e a maneira como nos portarmos, que o outro entende quem somos. Esse exterior que mostramos a todos não é precisamente o nosso gênero, mas sim, a maneira como precisamos que o mundo nos entenda.

Conhecer a sua verdadeira expressão pode ser fácil para algumas pessoas, mas no mundo em que vivemos, cujo o outro diz quem devemos ser, faz com que essa tarefa seja difícil, podendo leve anos para se concluir, precisando desconstruir o que nos foi imposto e alinhando o interior com o exterior.

Desde minha adolescência eu sabia como eu gostaria que os outros me vissem, mas por conta de toda a pressão social e familiar, não conseguia me expressar da maneira que tanto idealizava. Sonhava com cortes de cabelo que gostaria de fazer e roupas que mostravam ao mundo quem realmente era, mas o medo de ser criticado me invadia, pois as poucas vezes que consegui expressar em palavras o que gostaria de atingir, fui duramente recriminado.

Com esse medo me envolvendo como um casulo, eu comecei a fazer o tão repulsivo cisplay, me vestindo portando como a sociedade esperava, usava vestidos e saias, deixava o cabelo comprido, me tornava aquela mulher feminina e idealizada que não existia dentro de mim. O sofrimento que passei nessa época era encoberto pela aceitação social, estava bem por todos me dizerem que eu aparentava ser o que eles queriam, mas no fundo, todos os sonhos ainda vivam e o desejo de ser quem eu era não sumiu.

Comecei a minha busca por minha expressão de gênero quando cortei o cabelo com a desculpa que ele estava muito maltratado e feio, esse ato foi minha libertação, o primeiro elemento imposto por outros que deixei para trás. Foi nesse momento que me vi verdadeiramente feliz, aquela imagem no espelho era tudo o que sempre busquei. Dentro de mim um fogo crepitou, era a vontade de me construir e ser quem eu queria.

Com o tempo comecei a me entender, a me voltar para dentro e perceber o que eu gostava e o que não gostava. Reaprendi o amor por meus pelos, percebi que não precisava ter as unhas feitas, elas eram bonitas naturalmente e parei de usar tanta maquiagem, esse era um dos poucos elementos do mundo imposto que realmente gosto, mas que o uso excessivo me deixava mal.

Depois desses pequenos detalhes, chegou a hora de adaptar o meu guarda-roupa, ou ao menos, conhecer qual era o meu estilo. Tirava fotos todos os dias, olhava para o espelho e buscava na imagem que via o verdadeiro eu, depois de ver tantas vezes o meu rosto encoberto por nuvens, um dia eu me vi sorrir, usava uma T-shirt de anime e uma camisa xadrez, era essa a imagem que gostaria de ver sempre. Com esse ideal em mente, comecei a construir a minha expressão de gênero, ainda estou no meio do caminho do que tanto admiro, mas a cada dia que alcanço um novo patamar, o sorriso em meu rosto se alargar e minha força de vontade cresce dentro de mim.